Pessimismo está exagerado?

Trabalho acadêmico dos economistas Jonas Dovern e Nils Jannsen indica que projeções tendem a subestimar recessões, mas também subestimam retomadas.

Fernando Dantas

13 de agosto de 2015 | 00h25

A intensidade da atual recessão no Brasil não foi prevista pelos profissionais dedicados a projeções econômicas. O Boletim Focus do Banco Central (BC), que capta as expectativas de bancos e consultorias, veio reduzindo de forma sistemática a mediana das previsões para o crescimento de 2015. Há dois anos, a projeção era de expansão de 2,83%. Há um ano, havia caído para 1,2%. Há seis meses, passou para queda do PIB de 0,44%; há três meses, recuo de 1,21%; e a projeção mais recente é de PIB negativo em 1,97%.

O público leigo tende a ver com ironia esse processo de mudança de projeções dos analistas profissionais. A sensação é quase a de que a “previsão” só consegue enxergar o presente e apenas “acerta” quando muda uma última vez às vésperas do fato consumado. No folclore da narrativa política hostil ao mercado financeiro, que vê nele um vilão causador de muitos dos males do país, os erros de projeção são considerados na melhor das hipóteses como demonstração de que os economistas professam uma falsa ciência, e na pior como ferramentas de especulação e manipulação dos mercados.

Na verdade, os erros sistemáticos de projeções de indicadores econômicos são estudados a sério pelos próprios economistas. Recente trabalho de Jonas Dovern e Nils Jannsen, do Kiel Institute for the World Economy, na Alemanha, indica que, assim como há erros sistemáticos de superestimação do crescimento do produto quando a economia está em recuperação, também há erros sistemáticos de subestimação das retomadas.

Esse é um tema relevante num dos momentos de maior pessimismo em relação à economia brasileira nas últimas décadas. Na verdade, alguns prestigiados departamentos de pesquisa econômica já preveem para 2015 queda do PIB entre 2,5% e 3%. Considerando-se que o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace) determinou que a recessão começou no segundo trimestre de 2014, há até quem veja a possibilidade de dez trimestres recessivos, o que faria da atual retração uma das mais longas da história econômica brasileira.

Mas será que existe um viés negativo nessas projeções, assim como havia otimismo excessivo à medida que se caminhava para a recessão? O estudo de Dovern e Jannsen sugere que, se isto acontecer, não será exatamente uma novidade em termos de previsões econômicas.

Os dois economistas notam que, apesar uma longa tradição de estudos sobre a ocorrência de viés “ex-ante” em projeções econômicas, há uma lacuna de trabalhos deste tipo que foquem os momentos de reviravolta no ciclo econômico. Além disso, a literatura não olha para o período específico de recuperação, mas limita-se a dividir o ciclo entre recessões e expansões.

Eles consideram que a contribuição do seu trabalho é tripla. A primeira é usar um amplo painel de 19 países com dados de 1990 a 2013 (Consensus Economics) sobre projeções, além de resultados efetivos do PIB (a primeira divulgação disponível) neste período, para investigar se há erros sistemáticos de previsão dependentes do estado da economia. O segundo é tratar as recuperações como períodos à parte e o terceiro é trazer evidências sobre os padrões dos erros sistemáticos de projeção em torno dos pontos de virada do ciclo econômico.

Dovern e Jannsen concluem que o pequeno erro médio na direção otimista encontrado na média de todos os países e de todos os horizontes de projeção mascara “diferenças tremendas” na dimensão dos erros de acordo com o ponto do ciclo econômico, dos horizontes de previsão e dos países.

Assim, confirma-se o forte viés otimista das projeções quando se entra em recessões, como o registrado recentemente no Brasil. Por outro lado, também se indica que a força das recuperações é subestimada (embora menos que do que as recessões), e que os profissionais de projeção tendem a se atrasar em termos de identificar os pontos de virada do ciclo econômico.

Segundo o trabalho, os erros nas recuperações estão bastante ligados aos momentos que antecedem e se sucedem ao início da retomada. Os erros de projeção chegam a aumentar depois que a recuperação começa, mas se tornam muito pequenos num horizonte acima de 14 meses. As projeções de retomadas que se seguem a recessões suaves não registram erros sistemáticos significativos. O estudo também mostra diferenças significativas de grau de erro de projeção entre países.

Resta torcer para que o padrão identificado pelos economistas se repita no caso brasileiro, e que haja um viés pessimista nas atuais projeções, influenciado pelo desastroso momento que a economia está vivendo. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 11/8/15, terça-feira.

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