Petrobrás e ideologia são ameaças ao ajuste

Fernando Dantas

30 Dezembro 2014 | 09h44

A coletânea de artigos sobre as perspectivas da economia brasileira publicada pelo Estado no dia 21/12/14, domingo, indica que o muito anunciado ajuste a ser liderado pelo futuro ministro da Fazenda, Joaquim Levy, enfrentará pelo menos dois obstáculos substanciais. O primeiro é a crise da Petrobrás, e o impacto que pode ter na dinâmica não só política como diretamente econômica daqui para frente. O segundo são as críticas à natureza do ajuste que podem vir do próprio campo ideológico da presidente Dilma Rousseff.

Em relação ao primeiro problema, o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, considera que é “impossível reequilibrar financeiramente a empresa (Petrobrás) sem rever o modelo do pré-sal, repensar o tamanho dos investimentos e a política de preços”. É, sem dúvida, uma agenda dificílima para um governo que já estará carregando o custo político de apertar as contas públicas, aumentar juros, reajustar preços administrados e reduzir subsídios ao consumo e aos investimentos.

Por outro lado, resolver a crise da Petrobrás é fundamental para garantir um ajuste suave do desequilíbrio externo do País. Além de ser responsável diretamente por captações externas que representam um naco substancial da cobertura do déficit em conta corrente brasileiro, o fechamento do mercado internacional à Petrobrás contamina os programas de emissão de outras empresas. Adicionalmente, o programa de investimentos da estatal também é parte significativa do investimento total do País, e a inevitável desaceleração compromete ainda mais a capacidade de crescimento nacional – para não falar do impacto que o imbróglio terá na atividade das grandes empreiteiras junto a outros clientes fora do espectro de ação da Petrobrás.

A oposição ideológica ao ajuste de 2015 não parece, à primeira vista, um problema tão imediato quanto a crise da Petrobrás. Existe um entendimento, provavelmente correto, de que a virada à direita da política econômica projetada para o segundo mandato de Dilma foi promovida por Lula, a suprema liderança petista, por motivos estritamente pragmáticos. Assim, por mais que correntes de pensamento econômico ligadas ao partido se oponham à agenda ortodoxa de Levy, nada poderão fazer diante dos ditames de Lula e de seus muitos aliados da esfera política petista.

O problema, porém, é que, como argumentou em seu artigo o consultor Affonso Celso Pastore, também ex-presidente do BC, o ajuste a ser iniciado no próximo ano pode ser uma travessia muito mais longa e penosa do que a correção promovida pelo próprio Lula em 2003. À medida que tardem os resultados concretos de melhoria da economia e os consequentes reflexos positivos no bem-estar da população, devem começar a subir de volume as críticas que partem de economistas heterodoxos que sempre tiveram acesso preferencial aos ouvidos de Dilma. É uma questão em aberto quanto tempo vai durar o período em que o pragmatismo de Lula prevalecerá sobre a ideologia da presidente.

E, nos artigos de domingo no Estado, fica claro que a dissenção entre a política econômica anunciada por Levy e o pensamento heterodoxo que sempre informou a reflexão petista é profunda. Segundo Ricardo Bielschowksy, economista da UFRJ, “o nó atual da economia brasileira é a escassez de demanda”. Para ele, o “duplo acionamento de mecanismos de contenção” (políticas monetária e fiscal mais apertadas) pode prejudicar a arrecadação e atrapalhar o ajuste fiscal pretendido, tornando menos animadoras as perspectivas econômicas em 2015. Bielschowsky encerra seu artigo escrevendo que “resta torcer para que a armadilha do ajuste fiscal não venha a ter maiores consequências para o governo e o país”.

Por enquanto, essa visão crítica pode parecer muxoxo ideológico de pensadores derrotados no embate com a ala mais pragmática dos operadores políticos do PT. Mas em situação mais adversa da travessia à frente, se e quando o mercado de trabalho piorar e o mau humor com os governantes voltar a picos semelhantes ao de junho de 2013, a visão de mundo que também é partilhada pela presidente pode voltar a influenciar a política econômica. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Este artigo foi publicado pela AE-News/Broadcast em 22/12/14, segunda-feira.