Petróleo é termômetro da demanda global

Ben Bernanke, ex-presidente do Federal Reserve (Fed, BC americano), analisa por que cotação do petróleo e índices das Bolsas estão andando juntos.

Fernando Dantas

23 Fevereiro 2016 | 23h19

Um fenômeno intrigante dos mercados globais recentemente são as flutuações simultâneas – com o sentido predominante de queda – do preço do petróleo e dos mercados acionários. Na visão mais simples de quem acompanha o mercado no dia a dia, as ações seguem os recuos do barril. Isto em princípio contraria a lógica econômica, se for levado em conta que petróleo mais barato aumenta a renda do Leste Asiático, da Europa e até dos Estados Unidos – isto é, de uma parcela esmagadoramente majoritária da economia mundial.

Há diversas tentativas de explicação da aparente contradição: os ganhadores com o petróleo barato não sabem se a vantagem é permanente, e por isso não aumentam seus gastos; o petróleo e o setor de matérias-primas minerais (que cai junto) representaram uma parte expressiva do investimento no mundo nos últimos anos, o que agora deve retroceder; a queda brusca de preços põe em riscos países, grandes empresas e, em consequência, até os bancos, o que aumenta o risco no mundo; e, finalmente, os operadores das bolsas percebem quedas do barril como sinais de mais enfraquecimento da economia global, aumentando o pessimismo e as ordens de venda.

Quem entrou hoje nesse debate, com um artigo em seu blog, foi o ex-chairman do Federal Reserve (Fed, BC dos EUA), Ben Bernanke.

Ele investiga a possibilidade de que, em vez de a queda do petróleo provocar recuos nas bolsas, o que esteja ocorrendo seja uma reação simultânea de ambos – petróleo e ações – ao enfraquecimento da demanda agregada global que, nas palavras do economista, “prejudica tanto o lucro das empresas quanto a demanda por petróleo”.

Mais adiante no artigo, ele acrescenta que resultados dos exercícios estatísticos que fez, com colaboração de outros economistas, “são consistentes com a ideia de que, quando operadores de bolsa reagem a uma mudança no preço do petróleo, eles não o fazem necessariamente porque o movimento do petróleo traz consequências em si mesmo, mas porque as flutuações no preço do petróleo servem como indicadores da demanda e do crescimento global subjacente”.

Assim, de certa forma, Bernanke dá suporte a visão de mercado de que as quedas no petróleo levam a recuos nas bolsas, mas com ênfase no fato de que o preço da commodity, no caso, está funcionando como um termômetro da demanda global.

Em termos do seu método analítico, o ex-chairman do Fed primeiro investiga a relação pura e simples entre a evolução do preço do petróleo e do índice S&P500 desde 2011, notando que às vezes andam juntos e às vezes em direções opostas, mas na média a correlação é positiva – isto é, ambos vão na mesma direção. Então a primeira constatação é que os recentes movimentos não são uma novidade.

A partir daí, ele usa um método em que se computam também a evolução de outros indicadores sensíveis à demanda global – preços de commodities em geral, juros de longo prazo e o dólar.  Dessa forma, conclui-se que 40% a 45% do declínio dos preços do petróleo desde junho de 2014 podem ser atribuídos à fraqueza inesperada da demanda pela matéria-prima. Em seguida, encontra uma correlação de 0,48 entre os preços das ações e o componente de demanda da queda do petróleo, e de 0,39 quando se toma o preço do petróleo como um todo. A correlação das bolsas com o componente não de demanda da queda do barril é menor, de 0,16. É com essas constatações que Bernanke considera que o petróleo pode estar sinalizando o estado da demanda global aos mercados.

O economista faz outros exercícios, incluindo o Vix, o indicador de volatilidade dos índices acionários. A ideia é testar a hipótese de que os investidores também fujam em paralelo de ações e de commodities quando aumenta a volatilidade. A correlação das ações com o componente do preço do petróleo determinado tanto por demanda quanto por volatilidade sobe para 0,68.

Como observação final, Bernanke nota que, neste último exercício, mesmo o componente do preço do petróleo que não está ligado à demanda e à volatilidade tem uma correlação não negativa, próxima a zero, com as ações. Isto em princípio surpreende, porque teoricamente esta componente residual refletiria apenas efeitos positivos da queda do petróleo, em termos de choque de oferta.

Assim, ele acha que tem mais hipóteses para se examinar sobre a correlação positiva entre ações e petróleo, como a citada ideia de que a queda do barril afete as condições financeiras globais pelo seu forte impacto negativo em países e empresas produtoras da commodity. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 19/2/16, sexta-feira.