PIB: 4º tri já está nas brumas do passado

Resultado do PIB no quarto trimestre e em 2020 (queda de 4,1% no ano) foi até bom em comparações internacionais. Mas 2021 é outra conversa, e os sinais não estão nada bons.

Fernando Dantas

03 de março de 2021 | 21h29

O que mais chama a atenção na divulgação das Contas Nacionais do último trimestre e de 2020 não é a queda recorde na série histórica, mas sim que o resultado foi bem mais leve do que previsões catastrofistas do início da pandemia – que viam recuo de até 10% do PIB no ano passado.

O PIB acabou caindo 4,1% e, como nota Manoel Pires, ex-secretário de Política Econômica da Fazenda e pesquisador associado do Ibre/FGV, o Brasil não fez feio em comparações internacionais.

Tomando-se as projeções da OCDE, outros países latino-americanos, como Chile, Colômbia e México, devem ter recuos do PIB em 2020 de, respectivamente, -6%, -8,3% e -9,2%.

“O conjunto de políticas adotado no Brasil ajudou a chegar a um número bem melhor do que a gente previa em meados do ano”, diz Pires.

Ele se refere a iniciativas como o auxílio emergencial, o BEm (de manutenção de postos de trabalho) e medidas de liquidez e crédito do Banco Central, entre outras.

O grande problema, continua o economista, é o “what’s next”, “o que vem depois”. O que está ligado à forma como o PIB se recuperou em 2020 depois do tombo inicial da pandemia.

Como notou Rebeca Palis, do IBGE, o nível do PIB no quarto trimestre de 2020 está 11% acima do nível do segundo. Houve indiscutivelmente uma retomada.

No entanto, o padrão dessa recuperação foi bem peculiar historicamente, ainda que em 2020, ano de pandemia, tenha se repetido mundo afora. A indústria e o comércio saíram na frente, impulsionados pelo desvio do consumo para bens, e os serviços ficaram para trás, travados pelas restrições à mobilidade.

No ano todo de 2020, em que essa diferença fica um pouco diluída, a indústria recuou 3,5% e os serviços caíram 4,5%. Já na comparação entre o quarto trimestre de 2020 e de 2019, a indústria acumulava alta de 1,2%, enquanto os serviços recuaram 2,2%.

Pires nota que continuar a retomada em 2021 depende da reabertura dos serviços. E a gravíssima segunda onda da Covid-19 que o Brasil está vivenciando é uma paulada justamente nesse setor.

Ele espera que, no segundo semestre, com vacinação já então supostamente maciça fazendo efeito, isso possa ocorrer.

“Mas, por enquanto, nossa recuperação nos serviços ainda está muito retraída, o que é piorado pela segunda onda, e o melhor ritmo está em setores como indústria e o imobiliário”, observa.

Silvia Matos, coordenadora de macroeconomia do Ibre, também alerta que o PIB do quarto trimestre e do ano de 2020 é passado.

“Itens como serviços e transportes vieram até um pouco melhores que nossa expectativa no quarto tri, mas é um resultado que já está muito desconectado da realidade recente”, ela diz.

É longa a lista de preocupações de Silvia em relação a 2021.

No primeiro semestre, a virulência da segunda onda, junto com o ritmo lento da vacinação vai, como notou também Pires, impedir a normalização dos serviços e travar a economia.

Já no segundo semestre, a economista teme que se façam sentir mais claramente os efeitos negativos da piora das condições financeiras no Brasil, com grande empinada da curva de juros, alta de spreads e uma nova rodada de desvalorização cambial.

Ela aponta que o Brasil está para iniciar um ciclo de alta da taxa básica de juros em dessincronia com o contexto global, e, especificamente, em relação a outros países emergentes com baixo crescimento, em que aquele movimento não está ocorrendo.

A situação do Banco Central é difícil, porque mesmo com altíssimo desemprego, muita ociosidade de fatores e inflação de serviços controlada, a inflação cheia pode ficar acima de 4% no ano (a meta é de 3,75%). A razão é a combinação entre desvalorização cambial e alta das commodities – que traz pressão inflacionária nos produtos negociáveis internacionalmente, “tradables”.

Em termos da interação entre economia, política e políticas econômicas, a economista vê o quadro se agravando.

“É um momento muito delicado, uma encruzilhada”.

Com a economia fraquejando e o desemprego se mantendo em níveis muito elevados, ela acha que “a pressão por atalhos para gerar crescimento no curto prazo vai ser muito alta”.

Segundo Silvia, “agora é que veremos o quão capaz é o governo de manter uma política econômica não populista, até este momento foi mais fácil fazer  políticas preocupadas com os fundamentos”.

Ela acrescenta que o Estado brasileiro é muito suscetível à pressão de grupos de interesse, inclusive alguns cuja força é bem recente, como os caminhoneiros.

Dessa forma, o Ibre está com uma visão de atividade econômica bem medíocre em 2021 e 2022.

Este ano, apesar do carregamento estatístico de 3,6%, a projeção de crescimento do PIB é de 3,2%, o que significa um recuo médio na margem. O Ibre prevê os dois primeiros trimestres com crescimento levemente negativo, na faixa de -0,5%.

Silvia alerta que, como está muito próximo de zero, algum desses trimestres poderia eventualmente ir para território levemente positivo nas próximas revisões.

Mas a ideia é que no primeiro semestre a economia recua, voltando a um ritmo tépido no segundo.

Para 2022, a previsão por enquanto é de crescimento de 2,4%, mas o que é muito fraco dado que o carregamento estatístico projetado para o próximo ano é de 2%. E o desemprego permanece elevado este ano e no próximo.

É um quadro ruim para consumidores e empresários. E para Jair Bolsonaro, até onde a vista alcança.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/3/2021, quarta-feira.