PIB de SP melhor que o do Brasil em 2020 – por quê?

Segundo Bráulio Borges, da LCA e do FGV-Ibre, melhor desempenho da economia paulista em 2021 reflete maior resistência de setores sofisticados à crise econômica da Covid, e indica que pandemia agrava desigualdade.

Fernando Dantas

05 de março de 2021 | 19h54

A comparação entre o desempenho do PIB nacional e o PIB do Estado de São Paulo em 2020 é emblemática de alguns dos principais padrões da recessão causada pela pandemia, que é muito diferente das contrações econômicas tradicionais. E também é sintomática dos efeitos perversos que a Covid-19 pode ter na desigualdade.

A análise é de Bráulio Borges, economista-sênior da consultoria LCA e pesquisador associado do Ibre-FGV.

Os dados do PIB de São Paulo são da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), vinculada ao governo paulista. A Seade informa em seu site que é responsável, junto com o IBGE, pelo PIB anual de São Paulo, além de produzir indicadores como o PIB trimestral e mensal do Estado, o PIB dos municípios paulistas, entre outros.

O PIB paulista cresceu 0,4% no ano passado, comparado a uma queda de 4,1% para a economia brasileira como um todo. De cara, isso significa que o PIB do Brasil excluindo São Paulo deve ter caído algo entre 6% e 6,5%, como nota Borges.

O economista chama atenção para o fato de que os serviços em São Paulo tiveram alta de 1,8% em 2020, comparado a uma queda de 4,5% no Brasil como um todo.

Segundo Borges, esse padrão “reproduz, dentre as regiões do Brasil, algo que estamos vendo acontecer entre os países e mesmo ao longo da distribuição de renda: nas regiões ou países em que há mais serviços modernos, e em que as pessoas têm mais capital humano, além de mais infraestrutura de telecomunicações, o percentual de pessoas que pode trabalhar em home office é bem maior”.

Ele nota ainda que São Paulo é beneficiado pelo fato de ser um centro de intermediação financeira, um típico segmento sofisticado de serviços, que teve um desempenho bastante bom no ano passado, apesar da pandemia.

Entre os 13 subsetores do PIB pela ótica da oferta, aquele que teve melhor desempenho no Brasil em 2020 foi justamente o de “atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados”, que cresceu 4%.

Outro fator que pode ter sido favorável ao PIB paulista, na comparação com o resto do Brasil, é que São Paulo, entre os estados e Distrito Federal, é o que tem menor peso da administração pública (APU) na economia.

Com o fechamento das escolas públicas, o PIB do setor público sofreu forte impacto negativo.

Em São Paulo, a APU representa menos de 15% do valor adicionado nos serviços. Em nenhum outro estado essa proporção é inferior a 20%. Em 17 estados, é superior a 30%.

Segundo os dados do Seade, a indústria paulista teve recuo de 2,9% em 2020, inferior à queda de 3,5% do setor no Brasil como um todo, de acordo com os números do PIB nacional do IBGE.

Borges pensa que talvez isso se deva à influência da construção civil, que, junto com a indústria de transformação, a extrativa-mineral e os serviços de utilidade pública (eletricidade, saneamento etc.) integram a indústria total.

Mas ele ressalva que o possível papel da construção civil em reforçar o desempenho da indústria em São Paulo em 2020 é apenas uma conjectura sua, baseada no “que vejo ao meu redor”, e que precisaria ser confirmada por indicadores específicos.

De qualquer forma, o pesquisador observa como o efeito econômico da pandemia tendeu a ser mais forte – seja do ponto de vista do trabalhador, seja das empresas, da divisão do mercado de trabalho em formal e informal, das regiões e dos países – justamente nos segmentos mais atrasados, o que reforça a desigualdade.

Ele nota ainda como características de cidades e regiões explicam o padrão assimétrico da crise econômica da Covid. O Rio de Janeiro, por exemplo, destacou-se negativamente entre os Estados brasileiros no ano passado na criação de empregos formais, o que pode estar ligado à interrupção das atividades de turismo pelo lockdown.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/3/2021, sexta-feira.