PIB desaponta, mas retomada continua

Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco, aponta vários fatores que, na sua visão, devem garantir que a recuperação cíclica da economia brasileira prossiga. Mesmo com o PIB do 3º tri vindo abaixo do projetado.

Fernando Dantas

04 de dezembro de 2020 | 10h42

O PIB do terceiro trimestre veio abaixo da mediana das expectativas, tanto na alta de 7,7% ante o segundo trimestre na série dessazonalizada (todas as comparação com o 2º tri retiram o fator sazonal), quanto na queda de 3,9% em relação ao terceiro trimestre de 2019.

A indústria mostrou uma boa recuperação, com crescimento de 14,8% ante o segundo trimestre e queda de 0,9% ante o terceiro tri de 2019 (quando, sempre é bom lembrar, não havia nenhuma pandemia no Brasil).

Os serviços cresceram 6% no terceiro trimestre, ante o imediatamente anterior, e caíram 4,8% na comparação com o 3º tri de 2019.

Os serviços se mantêm como o setor mais afetado pela pandemia. Como mostra em gráfico o economista e consultor Alexandre Schwartsman, no seu relatório divulgado hoje sobre o PIB do terceiro trimestre, a indústria já voltou ao patamar onde se encontrava no início de 2020, depois do mergulho do segundo trimestre. Já os serviços ainda estão consideravelmente abaixo.

A agropecuária não mostrou nenhum impacto da pandemia, e praticamente não caiu no segundo trimestre.

Um desapontamento com o número do PIB não ajuda ninguém a ficar animado, mas Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco, diz que não está dando muita importância para a surpresa negativa.

O desempenho da indústria, ele nota, veio até acima do que o Bradesco esperava, com os serviços com desempenho abaixo do projetado.

Os serviços, no entanto – na visão do economista – dependem fundamentalmente da reabertura da economia. E essa depende vacina.

Para ele, a vacinação pode demorar dois meses a mais ou a menos, mas com certeza virá no primeiro semestre.

Dessa forma, quando se olha para a frente, a perspectiva do setor de serviços é de recuperação.

Barbosa vê uma série de sinais animadores na economia brasileira, em termos de retomada, como a já mencionada indústria, o varejo, o crédito e o mercado de capitais, com recorde de emissões.

Ele nota que o indicador de estoques da indústria das pesquisas da FGV aponta o nível mais baixo desde pelo menos 2015.

“Está contratada a produção para recompor esses estoques”, observa.

Até no mercado de trabalho, cuja real situação é objeto de muitos debates, o economista vê sinais relativamente positivos.

Ele acha previsível que a taxa de desemprego esteja subindo, porque ela só não se elevou mais durante a pandemia por causa de fatores como o auxílio emergencial, que fez pessoas ficarem em casa e desistirem temporariamente de buscar emprego.

À medida que esse contingente volta à força de trabalho, há tendência de o desemprego aumentar. Mas cálculos do Bradesco, relativos à PNAD Covid de outubro, indicaram que seis em cada dez pessoas que saíram do desalento conseguiram emprego, mesmo com a economia ainda parcialmente fechada.

Adicionalmente, nota Barbosa, o cenário externo está benigno em termos de apetite de risco, ativos brasileiros, como ações, estão em alta, há poupança sobrando nas famílias e o balanço das empresas nacionais está sólido.

Esse conjunto de fatores faz com que o Bradesco mantenha a sua previsão de queda de 4,5% do PIB em 2020 e esteja propenso a revisar para cima a projeção crescimento de 3,5% em 2021 – mesmo com o desapontamento do PIB do terceiro trimestre.

“As condições estão dadas para a retomada cíclica”, diz o economista-chefe do Bradesco.

Pode haver algum soluço no primeiro trimestre, na sua visão, com o fim do auxílio e se a vacina demorar mais um pouco, mas cedo ou tarde a reabertura da economia, somada às várias condições favoráveis mencionadas, deve pesar.

Como de hábito, o maior risco a esse cenário é fiscal.

“Aí não podemos derrapar”, ele diz.

Para o economista, há vários desenhos possíveis para dar apoio aos mais vulneráveis em caso do pior cenário, de uma combinação de segunda onda da Covid-19 e vacinação demorando um pouco mais para acontecer.

“O importante é não flertar com a desconfiança no regime fiscal, manter o teto de gasto e possivelmente sinalizar um aumento futuro do primário e da dívida pública convergindo [para níveis menos arriscados]”, acrescenta.

Mesmo num cenário em que orçamento e reformas fiquem para ser votados após a reabertura do Congresso em fevereiro, a consequente não extensão do “orçamento de guerra” já seria uma boa notícia, para Barbosa – já que se ele fosse renovado, na sua visão, isso abortaria a melhora dos ativos brasileiros com possíveis impactos na economia.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/12/2020, quinta-feira.