PIB foi bom, mas há senões

Retomada cíclica parece mais firme depois de surpresa positiva do PIB do terceiro trimestre, apontando novo modelo de crescimento com câmbio mais desvalorizado. Mas riscos, principalmente da economia internacional, ficaram mais evidentes nas últimas semanas.

Fernando Dantas

06 de dezembro de 2019 | 10h42

Nas últimas semanas, alguns eventos marcantes redesenharam o quadro da conjuntura econômica no Brasil. É possível dizer que o panorama à frente melhorou um pouco, mas ao mesmo tempo o potencial de descarrilamento, ligado a alguns riscos, ficou mais evidente.

A melhor notícia (divulgada nesta semana), evidentemente, foi o PIB do terceiro trimestre, que confirmou que uma recuperação cíclica moderada está em curso, depois de muitas idas e vindas desde 2017.

2019 começou com uma expectativa mediana de crescimento do PIB de 2,53% e, de decepção em decepção, a projeção caiu para um mínimo de 0,8% em julho e agosto. Agora, já se recuperou para 0,99%, e pode subir para pouco mais de 1% com o resultado do terceiro trimestre.

As projeções para 2020, que começaram este ano praticamente no mesmo nível das referentes a 2019, em 2,5%, também caíram até um mínimo de 2% em meados do ano. Agora, já se recuperaram para 2,22%.

“O mercado está reticente em aumentar a projeção de crescimento para 2020 por causa do que ocorreu em 2019, quando começou mais alto e teve que diminuir”, diz Solange Srour, economista-chefe da ARX Investimento, gestora de recursos no Rio.

Com o resultado do terceiro trimestre, a economista reajustou suas projeções de 0,8% para 1,15% em 2019, e de 2,3% para 2,5% em 2020.

Para o quarto trimestre deste ano, projeta crescimento de 0,6% a 0,7% em relação ao terceiro (na série dessazonalizada).

“Será o terceiro trimestre consecutivo de crescimento (ela se refere ao quarto tri deste ano), e o ano deve terminar com o PIB num ritmo de 2%; acho que pode ir para 2,5% no ano que vem”, comenta a analista.

Há sinais positivos sobre o quarto trimestre, como índices de confiança (o empresarial da FGV subiu um ponto, para 95,4, em novembro), automóveis (vendas de veículos subiram 4,9% em novembro, ante o mesmo mês de 2018, segundo a Fenabrave), e as fortes vendas da Black Friday (a ver se não foram antecipação de compras natalinas).

É verdade que este final do ano tem o impulso não recorrente da liberação de FGTS, mas é possível que a lenta melhora do mercado de trabalho (com resultados de formalização melhores no Caged do que na Pnad) pegue o bastão do impulso ao consumo em 2020.

O fundamental, aponta Solange, é que “com as condições financeiras atuais é difícil não haver recuperação”.

Ela se refere principalmente aos juros muito baixos. E é aqui que entra outra mudança marcante do cenário nas últimas semanas. Houve um episódio de estresse cambial significativo, com venda de reservas pelo Banco Central (BC).

Em parte, o episódio pode ser a cristalização de uma nova situação de equilíbrio externo, com câmbio mais depreciado, e que não foi antecipada pelo mercado.

As mudanças metodológicas no balanço de pagamentos, e revisões confusas das exportações jogaram a percepção para um lado e para outro, com reflexos no câmbio, mas permanece a sensação de que o câmbio acima de R$ 4,10 não é apenas ruído.

Por outro lado, o estresse cambial recente, em alguns momentos, afetou a curva de juros, inclusive em prazos mais longos, elevando o custo de capital.

Mesmo que o mercado já tenha iniciado a devolução desse movimento, e mesmo que, no pior momento, as taxas ainda tenham permanecido em território historicamente baixo, houve um sinal sobre certa vulnerabilidade da retomada às condições financeiras.

Estas são dependentes da continuidade das reformas domesticamente, mas estão muito vinculadas às condições da economia global, sobre as quais os policymakers nacionais não têm nenhum controle. O fantasma da desaceleração global e de encaminhamentos negativos do conflito comercial e geopolítico entre Estados e Rússia permanece como uma nuvem de tempestade pairando sobre a retomada da economia brasileira.

E isso ajuda a compor outro elemento do quadro macroeconômico nacional que mudou recentemente. O entusiasmo do mercado com a continuidade da queda dos juros – com uma ou outra aposta de Selic até  abaixo de 4% no fim de ciclo – arrefeceu.

Com o choque de oferta da alta da carne, o câmbio mais depreciado e sinais de retomada cíclica finalmente engrenando, cresce a visão de que o BC pode concluir o ciclo de baixa colocando a Selic em 4,5% na reunião de dezembro (o corte de 0,5 pp ainda é uma aposta bem disseminada).

O BC não gosta de mencionar isso, porque sai um pouco dos protocolos discursivos do sistema de metas, mas segurar a Selic e os juros de mercado um pouquinho, depois do susto cambial recente, não deve ser uma má ideia. A razão é que a redução do spread entre o juro externo e o interno pode ter sido um dos ingredientes da desvalorização.

Assim, chega-se a uma conjuntura econômica em que a continuidade da retomada em 2020 parece mais provável, mas num ambiente em que, no próximo ano, o câmbio pode ficar mais desvalorizado e os juros um pouco acima do que se imaginava até há algumas semanas.

E fica claro também que recuperação depende de fatores que o Brasil controla e que não controla. A missão, portanto, é trabalhar fortemente nos primeiros, para compensar eventuais surpresas negativas nos últimos. Adiar reformas por conveniências políticas, portanto, é muito arriscado.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/12/19, quarta-feira.

Tendências: