PIB não foi ruim, mas…

Resultado do primeiro trimestre confirmou que economia deve crescer em 2022 mais do que se pensava na virada do ano. Ainda assim, números deixaram a desejar.

Fernando Dantas

02 de junho de 2022 | 21h23

O resultado do PIB do primeiro trimestre veio numa espécie de zona cinzenta, a partir da qual é possível formular narrativas negativas ou levemente positivas sobre o estado da atividade econômica no Brasil.

O crescimento de 1% na margem, isto é, comparado ao último trimestre de 2021 de forma dessazonalizada, é forte, mas veio abaixo da mediana das expectativas de mercado apurada pelo Projeções Broadcast, de 1,2%.

A composição, particularmente, não agradou, com queda muito forte de investimentos.

Apesar isso, é um resultado que de certa forma confirma a mudança de visão sobre o desempenho da economia brasileira em 2022. Na virada do ano, os prognósticos se aproximavam de zero e chegavam até o território negativo em alguns casos, e hoje estão mais no intervalo positivo entre 1% e 2%.

Dessa forma, várias instituições revisaram hoje para cima suas projeções de crescimento para o ano, pois esperavam o PIB do 1º tri para sacramentar a mudança.

Por outro lado, como apontou Silvia Matos, coordenadora macro do Ibre-FGV ao repórter Cícero Cotrim da Agência Estado, “a demanda veio muito pior do que o esperado”.

Ela menciona o investimento, que foi a grande surpresa negativa, tendo caído 3,5% (4º tri de 2021, com dessazonalização), versus projeção de -0,2% do Ibre; e o consumo das famílias, que cresceu 0,7% na mesma base comparação, ante projeção de 0,8% do Ibre.

Luana Miranda, economista da Gap Asset, no Rio, tem uma visão matizada do resultado do PIB no primeiro trimestre.

O investimento de fato foi um resultado ruim – e até intrigante, levando em conta o bom desempenho da construção civil –, e ela pensa que pode ser um refluxo após um 2021 bem positivo, puxado pela própria construção e pela aquisição de máquinas pelo setor agropecuário.

Em relação ao PIB como um todo, a sua projeção era de crescimento de 1,3% (ante o 4º tri, dessaz.), e a economista diz que o erro derivou principalmente da agropecuária, que recuou 0,9%, naquela mesma base.

A indústria praticamente ficou parada, com crescimento de 0,1% ante o 4º tri, mas ela frisa que esse fraco desempenho já era esperado.

Por outro lado, os serviços cresceram 1% na mesma comparação, o que é um resultado expressivo.

Miranda afirma que o PIB do 1º tri não mudou qualitativamente sua visão sobre a atividade este ano e no próximo. Ela, na contracorrente dos analistas já mencionados que ajustaram para cima suas projeções de PIB no ano, retocou a sua ligeiramente para baixo – de 1,5% para 1,4%, apenas por conta do resultado abaixo do previsto no primeiro trimestre.

A visão da economista é de que o PIB em 2022 será puxado pelos serviços, mas não pela agropecuária nem pela indústria.

Ela nota que, mesmo com o impacto da ômicron no início do ano, os serviços foram bem no primeiro trimestre, e há vários fatores indicando que o aquecimento pode se estender ao segundo tri.

Há o impacto na demanda no 2º tri de medidas eleitorais como adiantamento do 13º, avaliado em R$ 57 bilhões, e a permissão de saques do FGTS, que pode injetar mais R$ 30 bilhões.

Os dados de atividade de abril foram fortes (hoje mesmo a Fenabrave divulgou crescimento nas vendas de veículos novos de 27,1% em maio ante abril, ainda que no ano ainda haja queda de 17%), assim como os resultados mais recentes de sondagens qualitativas de confiança e situação dos negócios têm sido favoráveis.

O mercado de trabalho também tem surpreendido favoravelmente, como nos dados da PNADC de fevereiro a abril.

Porém, como vários outros analistas, Miranda vê uma piora acentuada da atividade no segundo semestre, especialmente no último trimestre, como consequência do efeito defasado do aperto da política monetária e das condições financeira.

Para 2023, ela projeta crescimento do PIB entre zero e 0,5%, e não descarta algum resultado negativo.

Já o economista Livio Ribeiro, do FGV-Ibre e da consultoria BRCG, pensa que o resultado do PIB do 1º tri, mais fraco do que as projeções de boa parte dos analistas (mas alinhado à sua expectativa), deve moderar o que vê como otimismo do mercado. Ribeiro projeta crescimento de apenas 0,8% este ano, caindo para 0,3% em 2023.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/6/2022, quinta-feira.