Pib péssimo não traz surpresa

Resultado do quarto trimestre e do ano de 2015 confirma dramaticidade da crise brasileira.

Fernando Dantas

05 de março de 2016 | 01h05

O resultado do PIB do quarto trimestre foi ligeiramente melhor do que a mediana das projeções de analistas, mas não trouxe grandes surpresas e veio confirmar a dramaticidade da crise econômica brasileira. O PIB caiu quase 4% em 2015 e deve repetir a dose em 2016. O consumo das famílias recuou 4%, e os investimentos despencaram 14,1%, configurando o quadro “horrível” da demanda doméstica, como qualificou um analista.

Alexandre Ázara, sócio e economista-chefe da gestora Mauá Capital, nota que no tipo de medida a que se dá maior importância em outros países, inclusive nos Estados Unidos – a comparação do PIB no último trimestre do ano com a do mesmo trimestre no ano anterior –, o recuo foi de quase 6% (5,9%).

“Essa é a verdadeira ‘sensação’ de queda do PIB, e ela deve atingir seu pior momento neste primeiro trimestre de 2016, quando nós estimamos que a comparação com igual período de 2015 vai mostrar uma queda em torno de 8%”, ele diz.

A projeção de queda do PIB da Mauá para 2016 – no conceito oficial de média de ano contra média de ano – é de 4,5%, mas Ázara observa que o “nível do PIB”, medido pelo quarto trimestre de 2016 contra o quarto de 2015, deve cair menos do que em 2015.

Diversos analistas preveem uma trajetória de PIBs trimestrais este ano que parte de uma queda em torno de 1% no primeiro trimestre (na comparação dessazonalizada com o trimestre anterior) para melhoras gradativas que levariam o resultado para algo em torno de zero ou ligeiramente positivo no último trimestre. Eles notam que o produto já caiu tanto, e já está tão abaixo do seu pico, que é de se esperar que os recuos na margem se reduzam.

Chamou a atenção de alguns economistas o fato de que a construção civil no quarto trimestre tenha crescido 0,4% na margem, isto é, na comparação com o trimestre anterior na base dessazonalizada. Este resultado pode ter contribuído para o fato de a projeção média do mercado ter sido ligeiramente pior do que o resultado do quarto trimestre, mas um analista nota que os últimos resultados de outros indicadores do setor, como os insumos da construção civil na série da produção industrial (PIM-PF) ainda estão muito ruins. Assim, seria cedo para comemorar uma possível reversão na construção.

Em relatório divulgado hoje, Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA e pesquisador associado do Ibre/FGV-Rio, observa que o carregamento estatístico do PIB de 2015 para 2016, calculado por ele em -2,5%, é de ordem parecida com o que foi observado entre 1981 e 1982 (-3,2%), de 1990 para 1991 (-2,2%); de 1991 para 1992 (-1,7%) e de 2008 para 2009 (-1,8%). Mas ele acrescenta que “ainda assim, em todos esses episódios do passado a variação do PIB ‘superou’ o fardo negativo propiciado pelo carregamento estatístico (o PIB cresceu 0,8% em 1982; avançou 1% em 1991; recuou 0,5% em 1992; e caiu 0,1% em 2009)”.

Mas nem o próprio Borges prevê que tal cenário de retomada ocorra este ano. No relatório, o analista diz que sua projeção de recuo de 3% em 2016 (otimista se comparada à média do mercado) deve piorar um pouco. Isto ocorrerá em função do carregamento ser um pouco mais alto do que o antecipado, por causa do resultado do quarto trimestre (comparado à sua projeção) e da composição setorial da evolução do produto no quarto final de 2015.

Ele ressalva, entretanto, que a eventual continuidade até o final do ano da relativa estabilidade cambial e do risco Brasil poderia melhorar o cenário da economia, via redução das incertezas que travam o consumo de bens duráveis e o investimento. Borges apresenta um gráfico em que se nota que o crescimento do PIB trimestral ante o mesmo trimestre do ano anterior apresenta um padrão aproximado de variação inversamente proporcional à desvalorização do câmbio na mesma base de comparação. Projetando-se um câmbio estabilizado em R$ 4 até o final do ano, o gráfico torna-se compatível com um PIB positivo no último trimestre deste ano, na comparação com o mesmo trimestre de 2014. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 3/3/16, quinta-feira.