Pinguela avariada

É possível que Temer consiga claudicar até o fim do seu mandato. Porém, apesar de toda a deterioração política, não parece que o País caminha para uma "sarneyzação" completa.

Fernando Dantas

23 Julho 2017 | 20h36

Mais de dois meses já se passaram desde o fatídico 17 de maio, e a sensação hoje é de que Michel Temer vai ficando na presidência e tem uma chance não desprezível de completar o seu mandato (o que não quer dizer que a possibilidade oposta tenha saído do mapa).

A alternativa Rodrigo Maia, por exemplo, refluiu nos últimos dias. Ricardo Ribeiro, analista político da MCM Consultores Associados, considera que alguns fatores podem ter contribuído para isso: o governo mostrou força ao aprovar a reforma trabalhista no Senado, Maia tem pouco espaço politicamente para se colocar de forma mais vigorosa como candidato a sucessor de Temer, e o presidente manobrou bem para ganhar por um placar dilatado a votação sobre a denúncia da PGR na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).

Adicionalmente, Temer está sendo protegido pela calmaria no mercado financeiro, que pode deixar empresários e investidores em dúvida se vale a pena a turbulência de trocar o presidente por Maia, o que do ponto de vista de programa de governo é meio como trocar seis por meia dúzia. Finalmente, apesar de toda a impopularidade do presidente, as ruas permanecem apáticas.

Ribeiro, em particular, se diz pessimista quanto às perspectivas de um governo Temer até o final de 2018, e apreensivo em relação às eleições do próximo ano. Ele considera que Maia teria mais condições de aprovar uma reforma significativa da Previdência, por exemplo. E, quanto a 2018, o analista preocupa-se com o desgaste do PSDB, que vê como negativo para as chances de eleição de um presidente que mantenha a atual agenda reformista.

Segundo Octavio Amorim Neto, cientista político da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape/FGV-Rio), “O País está num limbo, já que Temer está fragilizado demais para tocar a agenda de reformas que prometeu, mas tem se mostrado até agora forte o suficiente para sobreviver aos trancos da Lava-Jato”. O analista acrescenta que Temer vem se equilibrando no poder em parte porque não há alternativas, e todas as possibilidades aventadas, como o caso recente de Maia, acabaram perdendo força.

Dessa forma, desenha-se um cenário de sobrevivência enfraquecida de Temer, mas que, curiosamente, não parece ter descambado até agora para o processo de “sarneyzação” que muitos analistas previram, caso a Lava-Jato atingisse fatalmente o atual presidente.

Duas possíveis explicações, relacionadas entre si, são de que, apesar da recessão terrível que o País enfrentou, a situação econômica hoje é menos catastrófica; e, ligada à primeira, há uma equipe econômica competente e coesa, que consegue impor não todas, mas uma parte razoável das suas diretrizes e decisões à área política do governo. Dois episódios recentes ilustram esse segundo fator: a união da Fazenda, Planejamento e BC que obrigou Paulo Rabello de Castro, presidente do BNDES, a recuar das suas críticas à TLP; e o impopular aumento da tributação dos combustíveis anunciado ontem.

Uma questão relevante é a de mapear quais tipos de acontecimento poderiam tirar a cena econômico-política do “limbo”. Aqui também não parece haver muitas novidades. Como nota Ribeiro, há o risco de novas denúncias contra Temer que recoloquem o presidente em alto risco de não completar o seu mandato. É de se perguntar, entretanto, se, dado que essa conjuntura já ocorreu e os indicadores macroeconômicos mantiveram-se estabilizados, por que agora uma renovada ameaça ao mandato de Temer sacudiria os mercados.

Outra possibilidade sempre lembrada é a de que o cenário internacional favorável sofra uma brusca mudança negativa. Tampouco parece hoje uma hipótese digna de tirar o sono, dado que supostos grandes solavancos relativamente recentes, como o Brexit e a eleição de Trump, dissiparam-se muito mais rápido do que se pensava.

E há, finalmente, o chamado “risco positivo”. Se Temer vencer a batalha da votação da denúncia do PGR no plenário da Câmara (outras virão, mas dá para supor que, se a primeira cair, fique mais fácil para o governo derrubar as seguintes) e conseguir surpreendentemente aprovar alguns poucos itens da reforma da Previdência, ele pode receber “uma lufada de ar”, como define Amorim Neto.

Não é algo nada provável (a Previdência), e, mesmo que ocorresse, não restauraria a governabilidade pré-17 de maio, nem ajudaria no front da desmoralizante falta de popularidade do presidente. Mas seria uma forma de “capengar” (outra expressão de Amorim Neto) pela pinguela muito avariada até o fim de 2018. A partir daí, entra-se no reino da imprevisibilidade absoluta. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/7/17, sexta-feira.