Piora externa pode favorecer oposição?

Fernando Dantas

20 Junho 2013 | 18h48

Os cientistas políticos brasileiros Daniela Campello, da Universidade de Princeton, e Cesar Zucco, da Universidade Rutgers, escreveram um ‘paper’ recente que deveria preocupar o governo brasileiro, e animar a oposição.

Colocando a conclusão principal nas palavras dos próprios autores, o trabalho “revela que é possível prever o sucesso presidencial na América Latina sem recorrer a qualquer fator econômico doméstico, baseando-se apenas no comportamento do preço das commodities e das taxas de juros internacionais”.

Esse é um resultado espantoso, que parece sugerir que todo o debate econômico das campanhas eleitorais de vários países latino-americanos é um exercício ocioso, já que o sucesso e a popularidade presidencial estão ligados a fatores internacionais que determinam tempos de bonança ou aperto das economias da região.

A principal preocupação dos dois cientistas políticos é com o fato de o eleitorado dos países latino-americanos aparentemente não enxergar –e, portanto, não descontar da sua avaliação do desempenho presidencial – o “fator sorte” representado pelo cenário externo favorável.

Como os dois observam, se a sua visão de fato estiver correta, “a ligação entre punição/premiação e desempenho é quebrada, potencialmente reduzindo os incentivos eleitorais para que os governos melhorem as políticas públicas, e afrouxando a conexão entre o voto econômico e a responsabilização democrática”. O ‘voto econômico’, simplificadamente, é a bem comprovada relação entre o voto nas democracias e o desempenho da economia.

Por outro lado, numa visão mais conjuntural, ocorre neste exato momento a combinação de altas de juros internacionais e commodities em queda. Portanto, pode ser uma boa oportunidade para as oposições em países como Brasil, Argentina e Venezuela, como observam em recente artigo no Clarín, jornal argentino, o cientista político brasileiro Octavio Amorim Neto, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), e Andrés Malamud, da Universidade de Lisboa.

Em seu trabalho, Daniela e Zucco criaram um índice de “bons tempos econômicos”, que sintetiza preços de commodities e taxas de juros internacionais. Evidentemente, matérias-primas em alta e juros baixos melhoram os tempos econômicos para boa parte dos países latino-americanos.

O índice, que eles batizaram de GET (das iniciais em inglês de “bons tempos econômicos”), variou de 1,7 negativo em 1982 para um pouco mais de 3 em 2011. Quanto maior o índice, melhores os “tempos econômicos”.

De forma generalizada, os autores notam que as taxas de juros americanas estavam extremamente altas no começo dos anos 80, o que levou à moratória mexicana e posterior crise da dívida latino-americana, Brasil inclusive.

Posteriormente, os juros americanos baixaram, abrindo espaço para um boom de fluxos de capital para a região, que permitiu que planos de estabilização da inflação baseados no controle do câmbio pusessem um fim ao ciclo de alta inflação na América Latina. A partir de 2000, a combinação de juros baixos e commodities em fortíssima alta criou um período sem precedentes de prosperidade na região.

Outro passo dos autores foi o de verificar quais os países latino-americanos têm o PIB mais suscetível às variações do GET. O Brasil está no grupo significativamente suscetível, junto com a Argentina (a mais sensível), Chile, Colômbia, Peru, Venezuela e outros países sul-americanos. Do grupo menos suscetível, fazem parte México e vários países da América Central.

A partir daí, Daniela e Zucco analisaram 107 eleições presidenciais livres e sem violações em 18 países latino-americanos desde 1980 –44 no grupo de países com PIB pouco suscetível ao GET, e 63 no grupo mais suscetível. Eles examinaram então o histórico de “reeleições”, considerando tanto a reeleição efetiva quanto a eleição do candidato apoiado pelo governo.

O estudo estatístico mostrou uma forte relação entre o GET e a reeleição nos países cujo PIB é mais suscetível ao índice de “bons tempos econômicos”. No outro grupo, a relação não é significativa. Em relação ao grupo suscetível, a taxa de “reeleição” (no conceito dos pesquisadores) subiu de 22% no pior período do GET para 67% no melhor período.

Em outras palavras, a melhora do cenário internacional teve um poderoso efeito nas chances de reeleição ou da vitória do candidato do governo na maioria dos países da América do Sul, mais dependentes de commodities.

Brasil

Daniela e Zucco também compilaram 375 pesquisas de popularidade presidencial no Brasil, por quatro institutos de opinião, entre março de 1987 e dezembro de 2012. Os pesquisadores encontraram uma forte correlação entre popularidade e o índice GET, ou seja, entre popularidade presidencial e commodities em alta e juros internacionais em baixa.

O trabalho mostra que a popularidade real dos presidentes brasileiros no período acompanha bem de perto a popularidade que seria “prevista”tomando-se apenas o índice GET. Como controle, eles examinam a popularidade presidencial americana e o GET, e, previsivelmente, não encontram nenhuma ligação. Não há nenhuma correlação positiva entre o índice de “bons tempos econômicos”(baseado em taxas de juros internacionais e preços de commodities) e o PIB americano – na verdade, ela é até negativa.

Na conclusão do trabalho, os autores frisam que não se trata de um determinismo absoluto. Há casos de reeleições ou de não reeleições naquele período que aconteceram mesmo quando as condições internacionais eram, respectivamente, mais desfavoráveis ou favoráveis. Da mesma forma, alguns presidentes mantiveram sua popularidade mesmo em cenários externos menos positivos.

Na verdade, eles chamam a atenção de que o principal achado do trabalho é de que o índice GET (baseado apenas no cenário internacional) prevê reeleições e popularidade presidencial tão bem quanto índices baseados em diversos indicadores econômicos domésticos (nos países mais suscetíveis ao GET).

“Nossos achados implicam que, em essência, os candidatos do governo são punidos ou premiados pela sorte – ou pelo menos por fatores fora do seu controle – mais do que por mérito”, escrevem os autores. O título do estudo, aliás, é “Mérito ou Sorte? Determinantes Internacionais no Desempenho Presidencial na América Latina”.

No artigo no Clarín, Amorim e Malamud mencionam três fatores pelos quais os ventos parecem mais favoráveis para a oposição no Brasil, Argentina e Venezuela. O primeiro é a piora da gestão dos governos, com baixo crescimento e inflação.

O segundo é uma melhor estratégia da oposição, já que eles acreditam que líderes como Ernesto Sanz (na Argentina), Henrique Caprilles (na Venezuela) e Aécio Neves têm mais condições de se aproximar do centro e sair da posição mais à direita em que seus partidos foram involuntariamente colocados pela hábil estratégia política de peronistas, bolivarianos e petistas.

O terceiro fator, finalmente, é a piora do cenário internacional, e, em relação a isto, Amorim e Malamud apontam o trabalho de Daniela e Zucco.

É de se notar que o primeiro fator apontado por Amorim e Malamud, a piora da gestão no Brasil, na Venezuela e na Argentina pode, na verdade, também estar relacionado ao terceiro fator, um cenário internacional mais adverso.

Um ponto de dúvida é que, quando se toma um país como o Brasil, a vulnerabilidade externa foi muito maior nas décadas de 80 e 90 do que a partir dos anos 2000. Em outras palavras, a forte correlação entre situação internacional e desempenho presidencial desde os anos 80 num país como o Brasil pode estar ligada em boa parte ao fato de que ajustes de balanço de pagamentos provocaram crises possivelmente bem piores nas duas primeiras décadas de observação do estudo.

Desde o início da década passada, o País teve uma situação muito favorável em termos de commodities e juros internacionais, com alguma trepidação durante o auge da crise global, mas que não interrompeu o período de vacas gordas (na verdade, os termos de troca do Brasil subiram mais fortemente depois da crise mundial).

O momento atual, portanto, seria o primeiro “teste”, no caso brasileiro, do efeito na economia e na popularidade presidencial de uma piora nos juros internacionais e nos preços de commodities depois que o País atingiu um grau mais elevado em termos de solidez macroeconômica. É bom lembrar que já houve alguma queda da popularidade da presidente Dilma Rousseff, mas esta ainda permanece em nível muito elevado.

De qualquer forma, o estudo dos dois cientistas políticos brasileiros traz uma boa notícia para a oposição que, como não poderia deixar de ser, está ligada ao “quanto pior, melhor” inevitável na luta política para aqueles que estão fora do poder.

Por outro lado, como demonstra a onda de manifestações populares de jovens brasileiros nos últimos dias, o País vive um momento político muito peculiar e complexo, que não cabe interpretar com análises simplistas ou excessivamente focadas na economia. O próprio Amorim acha que a onda de protestos na rua está ligada à “impotência” da oposição no Congresso e na vida política partidária propriamente dita.

Outras forças de oposição, como Eduardo Campos e especialmente Marina Silva, com a sua promessa de uma política “diferente”,poderiam vir a capturar a insatisfação difusa nas eleições do ano que vem.

Ainda assim, tanto a virada no cenário externo como a explosão de descontentamento nas ruas são sinais de que as placas tectônicas da política brasileira podem estar se mexendo. O cenário de grande parte dos analistas até poucos meses atrás, de uma reeleição tranquila e até sonolenta de Dilma Rousseff em 2014, tornou-se menos garantido.

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broadcast