Piora interna e externa

A semana fechou indicando que o BC tinha razão para temer os dois principais riscos do seu "balanço": o aumento de aversão ao risco na economia global, por causa do medo de recessão nas principais economias; e a não aprovação de uma reforma da Previdência satisfatória (aqui o BC não diz, mas por causa da incompetência política do governo Bolsonaro).

Fernando Dantas

22 de março de 2019 | 18h51

Hoje não são só os ativos brasileiros que estão caindo. Outros emergentes comparáveis, como México, Chile, Colômbia, África do Sul e Turquia registravam moedas e bolsas em queda quando esta coluna estava sendo escrita.

O que indica que um dos riscos apontados pelo Copom em seus comunicados de fato tem fundamento: o medo de uma desaceleração global mais forte que aumente a aversão a risco, o que sempre é negativo para países emergentes.

Ainda se está longe de configurar esse caso. Mas hoje o que incomodou, segundo um gestor com grande conhecimento de política monetária, foram indicadores econômicos ruins na Europa e, particularmente, Alemanha.

A rentabilidade do título de dez anos da Alemanha chegou a ficar em território negativo. Isto é um sinal tanto de fraqueza da economia quanto de possível “fuga para a qualidade” – o dinheiro se move em direção aos ativos alemães, considerados os mais seguros da zona do euro. Quanto mais demanda por um título, menor sua rentabilidade.

Recentemente, houve “cavalos de pau” pró-afrouxamento na orientação da política monetária do Federal Reserve (Fed, BC americano) e do Banco Central Europeu (BCE). No caso do Fed foi um cavalo de pau em tuas etapas, uma delas realizada ontem.

Juros mais baixos lá fora ajudam o Brasil em princípio, mas, como nota o gestor citado acima, “em 2016 e 2017 os juros estavam baixos porque o mundo acelerava sem inflação, e agora estão baixos porque o mundo desacelera e os bancos centrais estão com medo de recessão”.

Se os principais BCs do mundo (e isto inclui a China, onde também se gerencia uma desaceleração) forem bem-sucedidos em obter um pouso suave de suas economias – isto é, estas desaceleram, mas não entram em recessão –, aí sim será bom para o Brasil e outros emergentes. Um mundo crescendo um pouco menos, mas estável, e com taxas de juros muito baixas.

Mas se der zebra e uma ou mais das grandes economias globais chegar muito perto ou cruzar a linha da recessão, a coisa muda. Pode haver correção pesada em mercados de títulos e ações muito valorizados e turbulência financeira e econômica. Não é o que o Brasil quer.

A piora de apetite de risco de hoje, associada a dados ruins numa importante economia global, mostra que o risco externo de que fala o BC brasileiro não é nenhuma paranoia, segundo a corrente de analistas que inclui o gestor mencionado, que parece encarnar mais o que o Copom está vendo.

O pior, porém, é que o governo Bolsonaro, com a sua compulsão pelo erro não forçado, está dando razão ao BC também pelo lado doméstico. A sucessão recente de trapalhadas – algumas chegam a parecer autossabotagem, como as alfinetadas de Carlos Bolsonaro em Rodrigo Maia – coloca em dúvida a visão benigna que parte expressiva do mercado vinha sustentando, de 70% de chance de uma reforma da Previdência com economia de R$ 700 bilhões a R$ 800 bilhões. Talvez o conservadorismo do BC seja uma postura mais adequada.

E, evidentemente, a combinação de aguçamento simultâneo do risco interno e externo é o pior cenário, porque um alimenta o outro. É importante ressalvar que, no caso externo, ainda é muito mais um temor do que sinais efetivos de recessão. Movimentos como o de hoje são apenas um aperitivo do que poderia ocorrer no pior cenário.

Se a visão que dá forte importância a esses riscos estiver correta, a cautela do BC em não baixar a Selic pode fazer sentido. Uma piora abrupta e aguda do risco Brasil vai jogar para cima o câmbio e os juros de mercado. Se o BC mantiver intacta a sua credibilidade e a ancoragem das expectativas inflacionárias, a desvalorização do câmbio pode ter pouco impacto na inflação (como em 2018) e mesmo a alta dos juros privados pode ser menos intensa.

Mas tudo isso é paliativo, claro, porque, para eliminar o temor sobre a solvência pública que alimenta o risco Brasil, é preciso fazer a reforma da Previdência e encaminhar uma solução definitiva para o problema fiscal estrutural. O que inclusive ajudaria o Brasil a crescer, outro fator que melhora a solvência. A família Bolsonaro, no entanto, parece mais entretida no momento em dançar à beira do abismo.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/3/19, sexta-feira.