Pobres excluídos nos EUA

Nova base de dados de Piketty - autor de 'O Capital no século XXI' - e colegas revela a péssima evolução da renda da metade mais pobre dos americanos desde os anos 80.

Fernando Dantas

05 de abril de 2017 | 19h19

No momento em que o governo brasileiro se dispõe a fazer reformas da legislação trabalhista para flexibilizar o mercado de trabalho, vale a pena prestar atenção a uma das últimas contribuições de Thomas Piketty – o célebre autor de O Capital no Século XXI – e colegas sobre distribuição de renda nos Estados Unidos. Uma das conclusões é a de que aumentos do salário mínimo e reformas para reforçar o poder de barganha dos sindicatos são importantes para reduzir a desigualdade.

Mas talvez a principal novidade do trabalho de Piketty, Emmanuel Saez, de Berkeley, e Gabriel Zucman, da London School of Economics, seja a criação de uma nova base de dados para os Estados Unidos que compatibiliza a renda das contas nacionais com a das pesquisas domiciliares e a reportada no Imposto de Renda. Eles chamam essa nova base de dados de “distributional national accounts” (contas nacionais distributivas).

O avanço não é nada trivial, como os três mostram em recente artigo no site Vox, o portal do Centro para Pesquisa de Política Econômica (CEPR, na sigla em inglês). Segundo os autores, a renda reportada em pesquisas domiciliares mal chega a 60% da renda das Contas Nacionais, e esta defasagem tem aumentado. As contas nacionais distributivas permitem que se façam decomposições do crescimento da renda por grupos compatíveis com o crescimento macroeconômico que sai das Contas Nacionais.

Nessa pesquisa específica, Piketty, Saez e Zucman também criam séries sobre a distribuição de renda tanto antes do pagamento de impostos quanto depois – neste segundo caso, levando em conta para quem a receita do governo fluiu.

O fato mais chocante encontrado pelos três é que a metade mais pobre da população americana ficou alijada do crescimento econômico desde os anos 70. De 1980 a 2014, a renda média nacional das pessoas adultas cresceu 61%, mas os 50% mais pobres (com renda individual) ficaram estagnados em US$ 16 mil por ano antes dos impostos,  ajustados pela inflação. Em contraste, a renda dos 0,001% mais ricos cresceu 636% em termos reais; a do 1% mais rico, cresceu 205%; e a dos 10%, 121%.

No mesmo período, 32% do crescimento da renda por adulto nos Estados Unidos foi para a classe média (acima dos 50% mais pobres e abaixo dos 10% mais ricos); e 68% para os 10% mais ricos. Uma parcela de 36% do crescimento da renda foi só para o 1% mais rico. Com isso, os adultos americanos entre o 1% mais rico, que em 1980 ganhavam 27 vezes mais que os 50% mais pobres, hoje ganham 81 vezes mais. É a mesma diferença entre a renda média americana e a dos países mais pobres do mundo.

Quando a análise passa para a renda pós-imposto, a melhora é muito pequena. Em vez de crescer zero, a renda dos 50% mais pobres aumenta 21% entre 1980 e 2014, muito menos que a média geral.

Os autores também fazem uma comparação entre os 50% mais pobres nos Estados Unidos e na França. Entre 1980 e 2014, esse grupo na França teve crescimento de 32% na renda antes dos impostos. Assim, em 1980, a metade mais pobre da França ganhava em média 11% a menos que sua equivalente americana; agora ganha 16% a mais. Como o estado de bem-estar social na França é mais generoso que nos Estados Unidos, essa diferença deve aumentar na renda depois dos impostos.

Piketty, Saez e Zucman concluem que a estagnação da renda dos 50% mais pobres e a explosão da renda do 1% mais rico nos Estados Unidos não eram inevitáveis e coincidiram com a “drástica redução da tributação progressiva, ampla desregulação de setores e serviços (particularmente o setor de serviços financeiros), enfraquecimento de sindicatos e erosão do salário mínimo”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/4/17, segunda-feira.