Pode não ser tão ruim

Bráulio Borges, da LCA e do Ibre/FGV, explica por que não está tão pessimista com o PIB em 2017.

Fernando Dantas

09 Dezembro 2016 | 18h10

O pessimismo se instalou em termos das projeções de crescimento de 2017, mas alguns analistas resistem a migrar suas previsões para o terreno de 0,5%, ou até menos, como muitos bancos e consultorias já fizeram. Recentemente, o Itaú-Unibanco revisou sua projeção de PIB do próximo ano de 2% para 1,5%, mas ainda ficou acima da própria previsão do governo, de 1%.

Outro analista com uma visão menos pessimista é Bráulio Borges, economista-chefe da LCA e pesquisador associado do Ibre/FGV. Borges lista um conjunto de indícios para se contrapor à visão desanimadora que vem se disseminando no mercado.

Em primeiro lugar, o economista nota uma pequena melhora no carry-over de 2016 para 2017, a partir da revisão da série histórica do PIB desde 2014. Supondo crescimento zero no quarto trimestre, na comparação dessazonalizada com o terceiro – projeção de consenso –, o carregamento estatístico passou de -0,6 ponto porcentual (pp) para -0,5 pp.

Ele acrescenta, para reforçar o argumento, que os indicadores coincidentes estão sinalizando uma produção industrial bastante forte em novembro (com alta de 2% a 3% na comparação dessazonalizada com o trimestre anterior), depois dos desapontamentos recentes com o indicador.

Num segundo passo, Borges utiliza uma regressão simples para relacionar o carry-over de um ano com o crescimento do ano subsequente, com dados do Brasil de 1980 a 2015. Assim, chega a uma “regra mecânica” de que o PIB de um determinando ano é igual a 97% do carry-over mais 1,5 pp. Isto daria um crescimento de 1% em 2017, mas naturalmente o economista não superestima o poder preditivo da “regra mecânica”, já que ele também encontra no exercício que o “carry-over” de um determinado ano explica apenas 33% da variação do PIB do ano seguinte.

Adicionalmente, o economista analisa o padrão de recuperações de recessões (datadas pelo Codace-FGV) no Brasil desde 1980. Neste exame, fica claro que “quanto maior o tombo durante a recessão, mais lenta a recuperação do PIB após atingido o ‘fundo do poço’”.

Entretanto, mesmo comparando-se com as duas piores recessões precedentes à atual desde 1980, a de 1981 a 1983 e a de 1989 a 1992, a retomada foi bem mais forte naqueles períodos do que as projeções de recuperação hoje. Para replicar o padrão de recuperação daquelas duas recessões, nota Borges, o PIB deveria crescer de 2% a 2,5% em 2017. Evidentemente, ele não está dizendo que haverá tal replicação, mas observa que mesmo um crescimento de 1% no próximo ano já será extremamente baixo para os padrões históricos.

Outro fator que Borges traz para a mesa é um estudo recente de economistas do Kiel Institute, com dados de aproximadamente 30 países, que mostra que em médias as projeções de consenso subestimam o crescimento do PIB em saídas de recessões em cerca de 1 pp.

Finalmente, o economista faz referência à própria reação da política econômica à recente decepção com o PIB. O Banco Central sinalizou claramente, por meio da ata da última reunião e de entrevista hoje do seu presidente, Ilan Goldfajn, que deve acelerar o ritmo dos cortes da Selic para 0,5 pp, e que está bem preocupado com o nível de atividade. Já o governo indicou que vai agilizar a agenda de concessões e pensa em medidas para apoiar o processo de desalavancagem das empresas.

Todos esses fatores fazem com que Borges projete crescimento de 1% ou até mais em 2017, mas com a condição de que a turbulência política não vá muito além do que já se presencia, e que não é pouco. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 9/12/16, quarta-feira