ESG

Coluna Fernanda Camargo: É necessário abrir mão do retorno para fazer investimentos de impacto?

Poderia ser pior

Como o Brasil estaria enfrentando a atual onda global de aversão a risco se a reforma da Previdência não tivesse passado em duas votações na Câmara? Uma reflexão sobre Brasil, Argentina e a piora do cenário internacional.

Fernando Dantas

15 de agosto de 2019 | 10h34

Um dos combustíveis do populismo na América Latina é o fato de que boa parte dos benefícios da agenda de reformas econômicas passa despercebida pela população. E a explicação é simples: o benefício é ter evitado uma situação muito pior, mas que, por ser tratar de um contrafactual, é um risco que o eleitorado jamais perceberá ter corrido.

Isso é particularmente verdadeiro numa região do mundo em que as reformas, pela resistência política e corporativista, tendem a vir incompletas, atrasadas e diluídas. São tratamentos claramente insuficientes para economias e sociedades atoladas em instituições mal desenhadas, plena de incentivos errados, com carências estruturais graves, como a péssima qualidade de educação, e polarizadas pela desigualdade e pobreza.

Dessa forma, as reformas em muitos desses países conseguem evitar o pior, mas não trazer o melhor. Quando a situação já é ruim o suficiente, é muito difícil para as pessoas comuns perceberem que poderia ser ainda pior.

Esse enredo é continuamente reencenado na América Latina e, de certa forma, é parte da história do que acontece neste momento com Brasil e Argentina.

No caso brasileiro, uma nova onda global de aversão a risco atinge o País depois que a Câmara de Deputados aprovou em duas votações, com enorme maioria, uma reforma da Previdência robusta.

A turbulência está atingindo os ativos nacionais, com queda forte da bolsa, desvalorização do real e alta da curva de juros determinada pelo mercado. Mas não há pânico, e os juros, em particular, permanecem mais baixos do que em praticamente qualquer outro período da história.

É tipicamente a conjuntura que pode ser olhada pela abordagem do copo “meio vazio” ou “meio cheio”.

Começando pelo lado “meio vazio”, a economia brasileira está quase paralisada há três anos e meio, com uma dívida bruta de 80% do PIB. Essa combinação de elevada dívida e quase nenhum crescimento é uma perigosa fragilidade, que no momento não está sendo cobrada pelos mercados, mas que pode vir a ser adiante.

É verdade que o bom encaminhamento da reforma da Previdência reforça a resistência do Brasil às vagas internacionais, junto com diversas outras medidas de “arrumação de casa” desde que a nova matriz econômica foi abandonada em 2015.

No momento, o cenário dominante dos analistas é de que, neste segundo semestre, a economia brasileira, impelida pela queda dos juros, por certa recuperação da confiança e por medidas tópicas de estímulo (liberação de FGTS), comece a caminhar decentemente de novo.

No entanto, como observa um gestor de recursos no Rio de Janeiro, “uma piora mais forte no cenário externo facilmente reverte isso (a retomada do segundo semestre)”.

Nesse caso, o Brasil recairia no cenário de crescimento quase nulo (ou até negativo em caso de recessão) com elevada dívida pública, o que é uma combinação perigosa num momento de aversão a risco global.

Pelo lado do copo “meio cheio”, o País está bem mais preparado para enfrentar uma piora global do que se a reforma da Previdência tivesse sido torpedeada ou se tivesse vindo em forma muito diluída.

Esse reforço aumenta se a atual agenda econômica continuar a caminhar bem – a MP da Liberdade Econômica parece apontar esta direção –, com a reforma da Previdência sendo aprovada no Senado sem diluições (e com a inclusão dos Estados e municípios via PEC paralela) e a reforma tributária ganhando tração.

A relativa calma dos mercados nacionais até agora, diante do aumento da aversão a risco externa e do abismo do qual vai se aproximando a vizinha Argentina, é evidência de que o Brasil está menos frágil, embora longe de invulnerável.

No caso argentino, o governo Macri tentou tocar desde 2016 reformas para corrigir os desvarios econômicos do populismo kirchnerista, mas o atual presidente fez muito pouco e de forma muito lenta. Certamente a situação de hoje seria ainda pior sem os ajustes tímidos de Macri e o suporte financeiro do FMI, mas este é o tipo de contrafactual que um eleitorado penalizado pela inflação, desemprego e recessão não leva em conta.

Uma melhora num eventual governo de Alberto Fernandez dependerá da capacidade de o candidato oposicionista praticar estelionato eleitoral sem se desmoralizar politicamente, dando continuidade e aprofundando as suaves reformas de Macri que vem sendo impiedosamente atacadas pelo peronismo durante a campanha.

Seja como for, um mundo mais hostil tornará a tarefa de governar a Argentina a partir de 2020 ainda mais indigesta.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 14/8/19, quarta-feira.

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