Política amplia risco de ruptura na Grécia

Fernando Dantas

22 de setembro de 2011 | 19h19

Abaixo, meu artigo de ontem na Broadcast/AE-News.

Para aqueles que, como eu, assistiram de perto ao triste espetáculo do fim do regime de conversibilidade na Argentina, as chances de que a crise grega seja resolvida sem eventos traumáticos, como uma moratória drástica ou o abandono do euro, parecem muito reduzidas.

Lembro-me bem, nos anos que precederam a moratória e a desvalorização argentina, de aplausos de investidores externos à disciplina com que a o país tentava cumprir precondições cada vez mais draconianas para que o financiamento externo mínimo, de fontes oficiais, continuasse a pingar, e a inevitável ruptura fosse adiada.

Lembro-me também, em seminários na Argentina, da monótona cantilena de autodepreciação de economistas do país que defendiam os pacotes de austeridade. Referindo-se ao povo ao qual pertenciam, eles diziam que a vantagem da paridade com o dólar é que ela forçava a Argentina – que, como toda nação latino-americana, tenderia à irresponsabilidade fiscal e monetária – a fazer o dever de casa.

As condições dramáticas que precederam o calote eram vistas como o ambiente adequado para o teste definitivo, no qual ou a Argentina provaria sua capacidade de manter seus compromissos, mesmo com as piores dores, ou explodiria. O que havia, no entanto, era um claro círculo vicioso: o déficit e a dívida aumentavam, o governo tentava aprofundar a austeridade, essa deprimia ainda mais a economia, a arrecadação piorava e o déficit e a dívida se expandiam ainda mais.

Como no caso grego, a Argentina de fato agiu de forma bastante irresponsável nos anos bons do regime de paridade. É sabido que o ex-presidente Carlos Menem relaxou a política fiscal na sua tentativa fracassada de viabilizar um terceiro mandato. O fato econômico, porém, é que expiar o pecado de ontem não resolve necessariamente a crise de hoje e, pelo contrário, pode agravá-la. Exatamente como na Grécia agora.

É um pouco espantoso, portanto, que o establishment financeiro oficial, como a chamada troica – FMI, Banco Central Europeu (BCE) e Comissão Europeia – aja como se a Grécia pudesse superar a atual crise “fazendo o dever de casa”. É um sinal de que, apesar da globalização, o mundo não é tão plano assim. O que parece evidente numa perspectiva de vizinho da Argentina, ou seja, que a Grécia não sai dessa armadilha por um sobre-humano esforço de virtude, escapa às autoridades econômicas mais poderosas e capacitadas do planeta.

Vietnã como exemplo

Ou talvez não escape. Pode ser que a verdade seja simplesmente não absorvível pelo modus operandi dos organismos oficiais. Esta parece ser a mensagem de interessante artigo recente, no Financial Times, de Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro e ex-principal assessor da Presidência nos Estados Unidos (respectivamente nos governos Clinton e Obama).

Summers compara a situação das autoridades econômicas envolvidas no socorro à Grécia e a outros países europeus problemáticos com a situação das autoridades militares e políticas americanas durante a guerra do Vietnã, tal como descrito num ensaio de Danniel Ellsberg em 1972, baseado em vasto material do Pentágono ao qual o autor teve acesso.

Nas palavras de Summers, referentes ao Vietnã interpretado por Ellsberg, “a cada momento eles fizeram os mínimos compromissos para evitar o desastre iminente – oferecendo uma retórica otimista, mas nunca tomando os passos que até mesmo eles acreditavam que pudessem oferecer a perspectiva de uma vitória decisiva”.

Já no caso europeu, Summers diz que as autoridades, de forma similar, “para além da ortodoxia do euro, fizeram apenas o suficiente para evitar um colapso iminente, mas nunca o suficiente para estabelecer uma fundação sólida para a retomada da confiança”.

A melhor explicação que li recentemente para essa atitude não se encontra, curiosamente, no artigo de Summers, mas sim em outra peça de opinião no Financial Times, do colunista Gideon Rachman. Para ele, as razões do impasse não são econômicas nem financeiras, mas sim políticas. Simplesmente não existe na Europa a solidariedade entre as nações que permita aos políticos usar recursos do contribuinte – por exemplo – alemão para resgatar os habitantes da Grécia. Os políticos estariam paralisados não por conta própria, mas sim pela vontade dos seus eleitorados.

Em artigo no jornal Valor Econômico na terça-feira, o ex-ministro Antonio Delfim Netto lembra o manifesto de 150 acadêmicos alemães contra a participação do país no euro, quando foi anunciada a intenção do governo de aderir à moeda única. O argumento, correto em retrospectiva, era de que os países da união monetária não se submeteriam à disciplina econômica necessária para o sucesso do projeto.

O manifesto contra o euro dos acadêmicos alemães e o argumento de Rachman apontam na mesma direção. Não existe na zona do euro a coesão sociopolítica que permita aos líderes de cada país tomar decisões que tenham como objetivo primordial o bem-estar do grupo como um todo, mesmo à custa de algum sacrifício temporário dos seus respectivos eleitorados. Os eleitores não enxergam a Europa, mas sim seus próprios países.

Contornando o eleitor

Uma possível saída, criticável do ponto de vista democrático, seria canalizar a ajuda por caminhos que contornassem a representatividade popular. De certa forma, isso já está ocorrendo, com a compra pelo BCE de títulos públicos gregos e de outros países problemáticos e a criação do Instrumento Europeu de Estabilidade Financeira, que pode, em tese, emprestar até 440 bilhões de euros (US$ 603 bilhões) para membros da união monetária.

O problema, porém, apontado por diversos analistas, é que essas ações teriam de ser muito mais amplas e ilimitadas para apagar o incêndio de desconfiança nos mercados. No limite, a criação de um mercado de eurobônus, onde todos os países se financiariam por meio de títulos com risco partilhado (e ponderado pelo peso de cada economia do grupo), seria a forma definitiva de emprestar a credibilidade alemã, francesa e do norte da Europa aos países periféricos problemáticos.

O eurobônus, porém, seria inadmissível para a Alemanha e o Norte europeu sem novas amarras fiscais que, na prática, representariam grande renúncia à soberania dos membros – o que, obviamente, seria mais humilhante para os países periféricos e do Sul que estariam sendo devidamente submetidos à disciplina de inspiração germânica.

Além disso, a Alemanha, como notou Rachman, “é um raro país em que as atividades do banco central despertam profundas paixões políticas”. Em outras palavras, é equivocada a ideia de que, pela via do BCE e de fundos financeiros, seja possível contornar o debate democrático na Alemanha sobre a ajuda a outros membros do euro.

Na verdade, a renúncia recente do ultrafalcão alemão Jürgen Stark do Conselho do BCE colocou nos holofotes da opinião pública a questão do uso da instituição para fins outros que não a manutenção da estabilidade monetária nos moldes do antigo e arquiconservador BundesBank (BC alemão). E, ainda mais complicado, todos os mecanismos de transferência de recursos alemães para apoio a outros países que contornem a chancela parlamentar podem ser questionados do ponto de vista constitucional.

Ordem e caos

Com tantos obstáculos no caminho de uma solução radical para o problema da Grécia, que pode se estender a outros países do euro, as chances de um grande acidente de percurso aumentam.

Recentemente, o célebre economista Nouriel Roubini, que previu a crise das hipotecas subprime, escreveu claramente o que muitos pensam, mas poucos ousam deixar claro: a situação da Grécia é insolúvel na abordagem atual, e o país deveria dar um calote drástico, sair do euro, reintroduzir a dracma (com a consequente desvalorização), decretar a “dracmização” das dívidas em euro e até estabelecer um “corralito”.

Neste último caso, Roubini não empregou a expressão “corralito”, mas disse que a sua solução para a crise grega exigiria “a imposição de medidas ao estilo argentino – como feriados bancários e controles de capital”. Para bom entendedor, uma explicação como essa basta.

O economista escreveu ainda que o “dano colateral” do calote e da saída do euro pela Grécia poderia ser limitado se o processo fosse “ordeiro”. Quem assistiu ao desfecho da crise argentina, sabe que dificilmente a palavra “ordeiro” pode ser aplicada a situações deste tipo. Se houver melhora, ela provavelmente virá apenas depois de um período de caos. E, do ponto de vista das consequências para a economia global e para o Brasil, é justamente esse possível momento de ruptura o que mais importa.

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