Política comanda os mercados

Ativos brasileiros ficam à mercê das idas e voltas da probabilidade de impeachment (sobem com a possibilidade de Dilma sair, e vice-versa). O problema é que a política é muito imprevisível que a economia, que já é difícil de projetar.

Fernando Dantas

10 de março de 2016 | 23h13

Os mercados no Brasil entraram numa fase em que – descontada a sempre presente influência da economia internacional – a política se tornou o fator dominante. O problema, porém, é que, ao contrário dos vetores econômicos, que contam com uma profusão de indicadores quantitativos e que os analistas estão acostumados a acompanhar, a cena política é dificílima, para não dizer impossível, de projetar com um mínimo de segurança.

“A aleatoriedade política agora vai dominar tudo”, diz Tiago Berriel, professor de Economia da PUC-Rio e economista-chefe da gestora Pacífico. Na sua visão, o mercado como um todo reduziu substancialmente a probabilidade de impeachment depois da decisão do Supremo Tribunal Federal (STJ) sobre o rito do processo, que foi favorável ao governo. Agora, com a nova e pesada safra de fatos novos da Lava-Jato, as chances de interrupção do mandato da presidente Dilma Rousseff voltaram a subir, puxando para cima os ativos brasileiros.

Berriel considera que o mercado acompanha dois tópicos especificamente. O primeiro é a saída de Dilma, que seria teoricamente substituída por um governo com mais vontade e condições de fazer o ajuste fiscal e tocar a agenda de controle do gasto público. O segundo é a inviabilização da candidatura de Lula em 2018, que, na visão de analistas e operadores, eliminaria o risco de vitória do ex-presidente e a possibilidade de um novo ciclo de política econômica populista. A torcida do mercado pela incriminação de Lula e sua eventual prisão está ligada à visão de que isso impediria a sua candidatura em 2018. Mas Berriel ressalva que se “se ele fosse preso e solto e saísse mais forte politicamente, seria pior – embora eu não acredite nisso”.

De qualquer forma, o economista deixa claro que sua formação profissional não o torna particularmente apto a fazer cenários políticos, e esta é a situação da maioria do mercado. Mesmo os analistas políticos por formação – dentro ou fora do mercado – lidam com um objeto de conhecimento muito mais fluido e muito menos quantificável que a economia. Se esta já se revela extremamente difícil de predizer, o que dirá da política.

Assim, o movimento positivo recente do mercado é muito mais o registro óbvio, em largas pinceladas, de que as chances de interrupção do mandato de Dilma aumentaram, mas nem de longe existe um monitoramento fino e confiável sobre em que nível tal probabilidade se encontra e muito menos de como deve evoluir daqui para a frente. As consultorias políticas atribuem probabilidades precisas a eventos como impeachment por dever de ofício, mas um mínimo de bom senso indica que esses cálculos devem ser tomados com muitos grãos de sal diante da ‘aleatoriedade’ – como diz Berriel – do processo político.

Dessa forma, Tomás Brisola, economista-chefe da gestora BBM Investimentos, enxerga uma situação binária nas projeções de mercado: um cenário muito bom, com a saída da Dilma; e outro muito ruim, com sua permanência.

“Mas é muito difícil de avaliar a possibilidade real de cada um desses cenários, com todas as questões jurídicas e políticas envolvidas, o que também torna muito difícil operar”, ele comenta.

E a situação ainda tem complicadores adicionais, com alguns elementos quase paradoxais. O enfraquecimento de Dilma ao mesmo tempo alimenta o cenário otimista, de sua queda, mas piora o cenário pessimista de sua permanência – quanto mais fragilizada e desmoralizada a presidente estiver, mais difícil é fazer o ajuste fiscal e tocar as reformas. Por outro lado, o aumento das chances de impeachment ajuda diretamente o Banco Central (BC), com a valorização do real, o que acaba sendo favorável também para o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, que conta ainda com a alta da bolsa, positiva para a confiança (que, obviamente, depende de vários outros fatores também, sendo o principal o fiscal, que permanece não resolvido).

E há, finalmente, a discussão sobre se o mercado não está otimista demais em relação ao cenário sem Dilma. Brisola, por exemplo, acha que o tamanho do problema econômico e fiscal é tão grande que não será resolvido por um ciclo virtuoso de ganho de credibilidade – a ideia de que uma eventual posse do vice-presidente Michel Temer, com o programa liberal Ponte para o Futuro recentemente divulgado pelo PMDB, provocaria imediatamente ganho de confiança, queda do risco, apreciação do câmbio e retomada do crescimento e da arrecadação. A se acreditar nisso – o economista duvida – já seria meio caminho andado para a retomada.

Numa conta “na ponta do lápis”, Brisola calcula que, mesmo com uma hipótese otimista de crescimento potencial de 2,5% a 3,5% e juro real de equilíbrio caindo para 5%, seria preciso um superávit primário de 2% do PIB para estabilizar a relação dívida bruta/PIB, partindo-se de o que ele estima como um déficit estrutural de 2% este ano.

Ele acrescenta que a própria melhora nos mercados tiraria o senso de urgência dos políticos e poderia não contribuir para o ajuste fiscal e as reformas. “Este tipo de reforma de que precisamos é difícil em qualquer parte do mundo, e geralmente é feita em momentos de exceção, por governos que são eleitos e têm legitimidade para isso”, diz o economista da gestora BBM, acrescentando que Temer estaria assumindo um mandato pela metade, sem ser eleito para presidente com um programa naquela direção.

Finalmente, há a questão da oposição populista, que pode vir do PT e também de outras forças que surjam no cenário e que devem entrar com relativa força na corrida eleitoral de 2018. “Vai haver candidatos vendendo saídas fáceis, como por exemplo a ideia de que o juro da dívida é alto demais e que isso tem que ser atacado”, observa Brisola.

Aliás, em entrevista em outubro do ano passado, Ciro Gomes, pré-candidato do PDT a presidente em 2018, classificou como despesa “absolutamente criminosa” o gasto de “R$ 380 bilhões com juros intermediados por 20 bancos para beneficiar dez mil famílias de endinheirados, os rentistas do nosso País”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 7/3/16, segunda-feira.