Política econômica: dá para ter esperança?

Na 'live' sobre o lançamento do último livro de Affonso Celso Pastore, "Erros do Passado, Soluções para o Futuro - A Herança das Políticas Econômicas Brasileiras do Século XX, o autor conversou com José Roberto Mendonça de Barros e Marcos Lisboa, e a conclusão foi preocupante.

Fernando Dantas

08 de outubro de 2021 | 13h56

O debate em “live” hoje (7/10, quinta-feira) sobre o último livro de Affonso Celso Pastore, do qual tive a honra de fazer a mediação, terminou numa nota preocupante.

O título do livro é “Erros do Passado, Soluções para o Futuro – A Herança das Políticas Econômicas Brasileiras do Século XX”, e o volume foi publicado pela Portfolio-Penguin. O Estadão organizou o evento de lançamento.

Os três participantes, respeitados e escolados especialistas nas mazelas econômicas brasileiras – Pastore, José Roberto Mendonça de Barros e Marcos Lisboa –, concluíram suas intervenções falando do que esperam da política econômica no futuro, numa perspectiva de curto e médio prazo.

Antes de chegar lá, entretanto, um pouco de contexto.

O imperdível livro de Pastore exige algum conhecimento acadêmico de Economia para ser plenamente absorvido, recorrendo com frequência a formulações matemáticas. Mesmos os leigos interessados, entretanto, podem entender boa parte do recado.

O livro trata em profundidade de questões econômicas importantes com as quais Pastore se envolveu ou que testemunhou de perto na sua longa e profícua vida profissional: agricultura, inflação inercial, distorções de políticas setoriais no governo militar, o auge do desenvolvimentismo na era Geisel e a crise da dívida externa, o “eterno problema fiscal” (nome de um capítulo) e o debate cambial.

A chave de leitura, entretanto, é a de Pastore voltando ao passado para reexaminar cada uma dessas questões à luz do conhecimento da época e do que se sabe hoje em dia. Dessa forma, é possível mapear e detalhar de forma muito precisa os muitos erros, e poucos acertos, de política econômica em muitas décadas.

É a partir desse conjunto, com claro saldo negativo em termos da qualidade da política econômica, que se entende porque o Brasil estacionou há 40 anos na corrida comparativa de desenvolvimento socioeconômico, quando comparado a outros países, sobretudo asiáticos.

Como frisa Lisboa no prefácio do livro, Pastore e mais um grupo pequeno de economistas – como Mendonça de Barros e Delfim Neto – se notabilizaram por, numa época (anos 50 e 60) em que grandes narrativas carentes de comprovação empírica dominavam o pensamento econômico brasileiro, confrontar conjecturas precisas com os dados, para ver se as teses se sustentavam ou não.

Adicionalmente, em termos de teoria econômica, esse grupo estava ligado ao que havia de mais avançado na academia internacional à época.

Pastore prosseguiu com essa abordagem rigorosa a vida toda, até os nossos dias, mas – como frisaram os três debatedores – o conluio entre os vendedores de soluções “mágicas” e indolores aos políticos e a ação avassaladora e sem mitigação dos grupos de pressão no Brasil levou quase sempre à escolha das soluções erradas.

E olhando para a frente, o que se pode esperar? Esse foi exatamente o exercício que Pastore, Mendonça de Barros e Lisboa fizeram ao final do debate.

Mendonça de Barros notou que o “Brasil só muda com o pé no abismo”.

O economista traçou um quadro bastante dramático do momento atual e do futuro próximo. A radicalização e a polarização aumentam a força das narrativas fantasiosas, e há um processo flagrante de deterioração orçamentária na reta para as eleições de 2022.

Ele acrescentou ainda que, diferentemente do que se costumava dizer na sua juventude, o Brasil não está “condenado a crescer”. Ao contrário, países dão marcha à ré no desenvolvimento, como se pode ver no caso da Argentina.

Apesar de todas essas dificuldades, Mendonça de Barros acrescentou que, exatamente pelo fato de que o Brasil está de novo se aproximando do abismo, e que boa parte do eleitorado rejeita a polarização extrema, ele tem esperança de que se abra uma janela para uma discussão econômica mais construtiva na campanha e na preparação do próximo governo.

O economista vê o livro de Pastore como um roteiro e uma oportunidade para esse debate esclarecido, que poderia levar a uma política econômica de melhor qualidade.

Lisboa, por sua vez, nos seus comentários conclusivos, soou um pouco mais sombrio.

Referindo-se à imagem trazida por Mendonça de Barros, o presidente do Insper disse achar que “a gente já está caindo no abismo, um abismo triste, sofrido, lento, de um país em decadência há muito tempo”.

Para Lisboa, depois de 40 anos “crescendo menos que os países ricos e incrivelmente menos que a grande maioria dos emergentes”, o Brasil “está virando Argentina”, com a desvantagem de que a Argentina começou o processo de decadência mais rica que o Brasil.

Na visão de Lisboa, o Brasil está empobrecendo e continua a insistir em caminhos errados como conteúdo nacional, substituição de importações, além de não cuidar do aprendizado dos alunos, mas apenas da demanda corporativa por mais recursos para a educação. Ao longo do debate, ele criticou vários outros aspectos das políticas públicas das últimas décadas.

Lisboa considera que, tanto à esquerda quanto à direita, os governos no Brasil perderam o senso de responsabilidade em relação à política pública.

“Uma má notícia é que a superficialidade com o bem comum não tem ideologia”, ele apontou.

Mas o economista também disse que contemplar Pastore, aos 82 anos, com tanto vigor no debate é um motivo para não desanimar.

Pastore, claro, concluiu o olhar do painel de economistas sobre o futuro.

Para ele, o Brasil está capturado por grupos de interesse do setor público e privado, e se perdeu em termos de um objetivo nacional de equalizar oportunidades, reduzir a desigualdade e crescer.

Na visão de Pastore, a sociedade brasileira está sendo derrotada e, se não reagir e mudar sua forma de encarar e resolver os problemas com que se defronta, o pessimismo manifestado por Lisboa pode vir a se provar correto.

Por outro lado, ele acrescentou que o fato de que, aos 82 anos, esteja lançando mais um livro, e já com ideias novas para outros trabalhos, significa que “não joguei a toalha fora e meu coração vai com o Beto [referência ao leve otimismo de Mendonça de Barros]”.

“O fato de eu ter disposição de continuar no debate significa que tenho esperança; não há dúvida de que o Brasil está cavando um buraco, mas acho que ainda temos chance de sair dele”, concluiu Pastore.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/10/2021, quinta-feira.