“Política monetária ainda funciona”

Quatro prestigiados ex-diretores do BC convergem em considerar que política monetária ainda funciona, apesar da crise política e fiscal. Mas acham também que ela perdeu força, o que aumenta a "taxa de sacrifício" - quanto é preciso de perda de PIB e de piora do emprego para uma determinada queda da inflação. Discussão foi durante homenagem aos 70 anos de José Júlio Senna, pesquisador associado do Ibre-FGV, onde dirige o Centro de Estudos Monetários.

Fernando Dantas

23 de março de 2016 | 09h29

Quatro dos mais respeitados ex-diretores do Banco Central (BC) convergiram na sexta-feira, dia 18/3, para um diagnóstico aproximadamente comum para os atuais dilemas do Copom: a política monetária não está morta, mas foi ferida pela crise fiscal e política, o que significa que a “taxa de sacrifício” aumentou. De forma simplificada, a taxa de sacrifício dá a medida em que é necessário sacrificar a atividade e o emprego para conseguir uma determinada redução na taxa de inflação. Em outras palavras, o BC não deve ficar paralisado, pois ainda tem armas para lutar, mas seu combate ficou ainda mais difícil.

Os palestrantes, seguindo a avaliação hoje consensual entre analistas econômicos e políticos, incluíram em suas apresentações a possibilidade de uma mudança de governo em breve, que melhorasse as condições de governabilidade.

Afonso Bevilaqua, Eduardo Loyo, Mário Mesquita e Rodrigo Azevedo reuniram-se no segundo painel do evento de celebração dos 70 anos do economista José Júlio Senna, ex-diretor do BC, num dos auditórios da Fundação Getúlio Vargas, no Rio. Senna, o homenageado, é hoje pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre-FGV), onde chefia o Centro de Estudos Monetários.

Abrindo o painel, Bevilaqua observou que os quatro ex-diretores reunidos naquele painel nunca estiveram simultaneamente na mesma reunião do Copom, mas ele, quando no BC, participou de reuniões com os outros três.

Bevilaqua fez uma exposição mais ampla sobre todos os problemas de política econômica nos últimos anos que levaram o BC à sua atual situação crítica. O ex-diretor considera que a continuidade do atual impasse político e fiscal levaria a política monetária a uma situação de progressiva dominância fiscal, quando a elevação de juros para conter a inflação não só se torna ineficaz, mas até contraprodutiva.

Mas ele acrescentou que – não apenas depois de algum tipo de solução positiva para a atual paralisia, mas mesmo antes, na condição de que, como agora, exista pelo menos a perspectiva de algum encaminhamento do problema fiscal – “não há por que o BC não agir”.

Loyo, por sua vez, comentou os problemas graves de ancoragem das expectativas em torno da meta de 4,5% – já que, em 18 anos de sistema, apenas uma vez ela ficou abaixo disto, e em boa parte do restante do período ficou bem acima. Assim, uma reancoragem nos 4,5% dependeria ou de “uma surpresa positiva do rendimento desinflacionário” da atual recessão, ou de que os agentes percebessem uma “mudança permanente de abordagem” da gestão do sistema.

Mesquita discutiu a possibilidade de uma possível mudança de abordagem, que seria a concessão de autonomia formal ao BC. Ele frisou a importância de que, nesse caso, o mandato fosse cuidadosamente estabelecido, para que – levando-se em conta o contexto institucional e político brasileiro – o BC fosse devidamente orientado a priorizar o controle da inflação e a estabilidade financeira.

Já a apresentação de Azevedo, último a falar, incluiu a menção a um exercício do economista Marcelo Ferman com coeficientes dos modelos de projeção de inflação, que parece indicar que a inflação hoje já está reagindo menos ao hiato do produto e às expectativas, e mais à inércia e ao câmbio, do que as hipóteses convencionais. Se verdadeira, essa possibilidade não só estaria em linha com o aumento da taxa de sacrifício (menor reação ao hiato do produto) como, de certa forma, mostraria uma involução do padrão de resposta da inflação aos diferentes fatores que se espera de um sistema de metas de inflação. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 21/3/16, segunda-feira.