Política monetária pelo avesso?

"Neofisherismo" propõe que, para recriar a inflação nos países ricos, seria preciso que BCs trabalhassem com taxas básicas nominais mais altas.

Fernando Dantas

23 de agosto de 2016 | 00h06

Uma nova abordagem do problema das taxas de juros e inflação muito baixas ou negativas no mundo desenvolvido começa a chamar a atenção, e basicamente inverte tudo aquilo que a maior parte das pessoas entende sobre o funcionamento da política monetária.
Em artigo de julho deste ano, Stephen Williamson, economista do Federal Reserve (Fed, BC dos EUA) de Saint Louis, discute o chamado “neofisherismo”, termo derivado de Irving Fisher, economista norte-americano falecido em 1947. Em termos resumidos, a ideia é que os bancos centrais em luta com a deflação têm que subir suas taxas básicas de juros.

Essa recomendação parece absurda para quem está acostumado com a ideia de que elevação de taxas básicas é um instrumento para reduzir, e não aumentar a inflação. De forma inversa, baixar os juros deveria elevar a inflação.

Porém, como nota Williamson, esta segunda parte da fórmula parece não estar funcionando no mundo desenvolvido. Ele menciona (o trabalho foi publicado em julho) que o juro básico do Banco Central Europeu (BCE) está em -0,34%, e a inflação na zona do euro em -0,22%; o BC sueco tem taxa básica de -0,5% e a inflação é de 0,79%; para os mesmos indicadores, a Dinamarca tem -0,23% e zero; a Suíça, -0,73% e -0,35%; o Reino Unido, 0,47% e 0,3%. Em todos os casos, esses bancos centrais vêm falhando por muito tempo em manter a inflação no piso, normalmente de 2%. O mesmo ocorre com o Fed, cuja taxa básica atual está na faixa de 0,25% a 0,5%.

Diante desse quadro, os BCs partiram para política monetárias anticonvencionais, com medidas como levar a taxa básica nominal para baixo de zero, caso do Japão, Suíça, Dinamarca e Suécia; comprar em grande escala títulos longos públicos e privados, o “afrouxamento quantitativo” (muito usado pelos Estados Unidos, Suíça e Japão); e a “orientação prospectiva” (“forward guidance”), como garantir que os juros ficarão baixos por muito tempo, para tentar criar inflação. Nada disso parece ter funcionado para elevar a inflação.

A abordagem neofisherista poderia ser lida como consistente com o que está ocorrendo: à medida que os BCs derrubam os juros ou os tornam negativos, a inflação cai cada vez mais.

A ideia é muito simples. A taxa nominal de juros é igual à taxa real de juros mais a inflação futura. A política monetária convencional trabalha com a ideia de que um aumento da taxa nominal, para uma dada expectativa de inflação futura, aumenta a taxa real, e isso tem efeitos sobre a economia real, deprimindo a demanda. Dessa forma, a inflação cai. Reduções da taxa nominal têm efeito inverso.

Mas Williamson explica que “como é amplamente aceito pelos macroeconomistas, estes efeitos (na economia real) se dissipam ao longo do tempo”. Assim, no longo prazo, um aumento permanente da taxa nominal de juros resulta apenas no aumento da inflação, o que é chamado de “efeito Fisher”.

Segundo o economista, todos os modelos macroeconômicos da corrente principal da economia predizem que um aumento nominal permanente e não antecipado da taxa de juros, depois provocar um aumento da taxa real no momento inicial, é seguido por um gradual movimento de aumento da inflação e de redução da taxa de juros real.

Williamson cita o reconhecido economista John Cochrane como tendo mostrado que os modelos neokeynesianos, muito utilizados, preveem que um aumento permanente de um ponto porcentual na taxa básica de juros nominal fará a inflação subir, mesmo no curto prazo.

Tudo isso contrasta frontalmente com o que Williamson chama de “sabedoria convencional” dos bancos centrais, personificada pela “regra de Taylor” (do economista John Taylor): “(…) o comportamento ótimo do banco central pode ser formulado como uma regra que inclui uma reação positiva da meta de taxa nominal (básica) do BC a um aumento da inflação”. Ele observa inclusive que o “princípio de Taylor” é de que a taxa básica nominal deveria subir mais do que o salto inflacionário que levou o BC a elevá-la.

Na conclusão do seu artigo, Williamson menciona que o Fed é o único entre os principais bancos centrais que entrou num ciclo de elevação da taxa básica. Mas ele nota que este movimento deve ser lento “e não é motivado explicitamente por ideias neofisheristas, embora James Bullard, presidente do Federal Reserva Bank de Saint Louis, tenha mostrado interesse (pela ideia)”.

Os riscos da “negação do neofisherismo”, para Williamson, são a perda de credibilidade dos BCs, cujas metas de inflação são sistematicamente não cumpridas, e a falta de instrumentos – fora as políticas anticonvencionais que talvez nem ajudem e são pouco compreendidas – caso as economias recaiam em recessão. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/8/16, segunda-feira.

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