Popularidade e governabilidade

Com um programa de ajuste na contramão do discurso da campanha e uma onda de notícias ruins na economia e na política, a presidente Dilma sofreu dura queda de popularidade, o que complica ainda mais a governabilidade. O pessimismo, porém, pode ser exagerado, o que seria um fio de esperança para a presidente, segundo o cientista político Cesar Zucco Jr., baseado em impressões muito iniciais de pesquisa da cientista política Daniela Campello. Ambos são da Ebape/FGV, no Rio.

Fernando Dantas

17 Fevereiro 2015 | 18h51

O desafio assumido pela nova equipe econômica dos ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa, inclui um equilíbrio delicado entre a economia e a política. 2015 é um ano de forte ajuste econômico: com juros altos, aperto fiscal e correção de preços administrados, vai se colher provavelmente queda do PIB, inflação acima do limite de tolerância de 6,5% e aumento do desemprego.

Todo esse sacrifício, claro, para pavimentar o caminho para melhoras consistentes da economia a partir de 2016. O problema é que não foi isso que o governo da presidente Dilma Rousseff combinou com o eleitorado durante a campanha eleitoral. Na ocasião, não só a presidente sustentou que estava tudo bem com a economia como acusou seus oponentes – eles sim – de intentarem fazer um ajuste recessivo em 2015, exatamente como o que ora está em curso.

A frustração do eleitorado, que gradativamente percebe ter sido enganado, soma-se ao escândalo da Petrobrás e aos problemas de energia e água para compor o cenário em que a popularidade da presidente esvaiu-se com impressionante velocidade a partir do seu nível logo após a eleição.

A combinação da eleição de Eduardo Cunha, um operador político hostil ao governo, para presidência da Câmara com a queda de popularidade cria uma ameaça muito concreta ao plano de voo da equipe econômica. Centenas de emendas já foram apresentadas, por exemplo, às medidas provisórias que introduzem mudanças nas pensões por morte e no seguro-desemprego, aspectos estruturais importantes do ajuste fiscal proposto pela nova equipe econômica – no mais, o ajuste não deve fugir da fórmula emergencial de aumento de impostos e corte de investimentos. Torna-se bastante possível, portanto, que as mudanças nos benefícios sociais sejam descaracterizadas na tramitação no Congresso.

Evidentemente, o destino das MPs é apenas o primeiro dos problemas que o governo e a equipe econômica enfrentarão no Congresso à medida que todas as questões orçamentárias e que envolvam mudanças mais estruturais passarem pelo crivo de uma base aliada cada vez menos propensa a apoiar o Executivo na contramão do clamor das ruas. Um ajuste que já seria difícil em boas condições de governabilidade pode se tornar excruciantemente complicado num cenário de esvaziamento político da presidente.

A luz no fim do túnel para a presidente Dilma Rousseff, entretanto, talvez seja o fato de que a onda de pessimismo atual pode ser exagerada quando comparada à realidade concreta das pessoas. A cientista política Daniela Campello, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape), está iniciando estudos sobre os dados de confiança do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre). Ambas as instituições fazem parte da Fundação Getúlio Vargas (FGV) no Rio.

Campello tem indicações – muito iniciais, ela ressalva – de que a queda da confiança recente no Brasil segue um padrão que já se atestou ser muito comum em outros países e lugares: há excesso de otimismo em tempos bons e excesso de pessimismo em tempos difíceis. “É como se as pessoas ficassem mais confiantes do que precisavam quando as coisas vão bem, e ficassem menos confiantes do que precisavam quando vão mal”, diz a pesquisadora. E essas sensações infladas estão muito ligadas às respostas sobre a situação geral da economia e do país, contrastando com as respostas sobre a situação específica do entrevistado, que costumam ser menos voláteis.

O cientista político Cesar Zucco Jr., também da Ebape, nota que a impressionante enxurrada de notícias ruins – crise elétrica e hídrica, Petrobrás, derrota no Congresso – desde a posse de Dilma pode estar influenciando essa percepção sobre a situação geral do País e insuflando o pessimismo. Ele não tem dúvida de que, com a deterioração da popularidade, Dilma terá de ceder mais aos aliados para tocar sua agenda de governo. Mas Zucco considera que, se a presidente não for incriminada diretamente no escândalo da Petrobrás, ela tem condições de governabilidade e fôlego para esperar um eventual abrandamento do clima de pessimismo que tomou conta do País (e que está, ele nota, afetando Executivos de outras esferas da Federação, como os governos estadual e municipal de São Paulo). “Do jeito que a coisa está, se não piorar já é uma melhora”, ele avalia. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 10/2/15, terça-feira.