Por dentro da inflação de serviços

Trabalho de Claudio Hamilton Matos dos Santos, do Ipea, busca uma visão mais detalhada e profunda da inflação de serviços, principal vilão da persistência de elevadas taxas de inflação no País.

Fernando Dantas

17 de outubro de 2014 | 19h32

A inflação de serviços, rodando na faixa de 8,5% a 9% ao ano, é vista por boa parte dos analistas como um dos maiores, se não for o maior, dos desafios da política monetária no próximo mandato presidencial. Em nota técnica na Carta de Conjuntura do Ipea de outubro de 2014 (versão preliminar), Cláudio Hamilton Matos dos Santos, técnico de planejamento e pesquisa e diretor da Diretoria de Estudos e Políticas Macroeconômicas (Dimac) da instituição, conclui que a recente inflação de serviços deve-se a um grupo relativamente restrito de setores intensivos em trabalho qualificado, como saúde e educação privadas, e não qualificado, como alimentação fora de casa e serviços pessoais; e serviços cujos preços dependem do valor da terra urbana, como estacionamento, aluguel e hotéis. A inflação destes serviços tem ficado em torno de 10% anuais desde 2011, e seu peso no IPCA tem subido, estando próximo a 30%.

O trabalho se propõe a analisar com mais profundidade e detalhismo a inflação de serviços, e baseia-se na Pesquisa Anual de Serviços (PAS) e na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), ambas do IBGE; e na Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho. O período abordado vai de 1999 a 2014.

O estudo busca investigar a natureza da inflação de serviços a partir de dicotomias como serviços livres e monitorados, serviços de alta ou baixa pressão inflacionária e serviços com diferentes padrões na intensidade do uso dos fatores de produção.

No caso da pressão inflacionária, Santos a considera elevada quando a inflação do serviço em questão superou a do IPCA em 30% ou mais durante determinado período de tempo. Quanto ao uso de fatores de produção, ele segue as definições de serviços “estagnados” e “progressistas” de William Baumol e outros autores. O primeiro tipo, nas palavras de Santos, “depende essencialmente do trabalho humano, não passível de substituição por máquinas”, e apresenta fortes limites aos ganhos de produtividade no longo prazo. No caso dos setores “progressistas”, aproximadamente os intensivos em capital, pode haver fortes ganhos de produtividade.

De forma mais genérica, Santos acha que seu estudo é compatível com algumas visões recentes que tomaram conta do debate sobre a inflação de serviços. Assim, ele cita observação do economista e consultor Claudio Frischtak sobre a forte criação de empregos e aumento de renda nos segmentos inferiores da pirâmide social e nos serviços de baixa produtividade, impulsionados “pelo aumento e diferenciação do consumo das camadas sociais entrantes no mercado”. Da mesma forma, Santos vê seus achados corroborando a visão do Banco Central de que a dinâmica recente da inflação de serviços livres é parcialmente explicada pela inclusão social.

Mas talvez o mais interessante no estudo do diretor do Ipea sejam características específicas que ele começou a mapear do boom e da inflação dos serviços no Brasil. São informações como a de que serviços de alimentação e beleza tiveram fortes aumentos reais de salários mas ainda assim mantiveram o custo unitário de trabalho sobre controle, por causa da elevação da produtividade. Assim, são setores que tiveram rápido crescimento da lucratividade. Já o segmento de manutenção e reparação de veículos automotores teve comportamento de setor estagnado, com crescimento de salários bem acima da produtividade do trabalho.

Santos detectou também rápido crescimento em ocupações como serviços de alimentação, cabelereiros, saúde privada, manutenção de automóveis e transporte público (em que houve fortíssimos aumentos de ocupação em transporte aéreo e metroviário), e redução em números absolutos em serviços domésticos, consertos domésticos, habitação, correios e costureiras.

Ele nota ainda que “grande parte dos serviços de alta pressão inflacionária apresentou taxas chinesas de crescimento tanto do valor adicionado quanto do nível do emprego entre 2007 e 2011”.

Em termos da inflação de serviços especificamente, o pesquisador constatou que o crescimento explosivo de determinados setores não é condição suficiente para a aceleração da inflação. Ele cita, como exemplos, alojamento, TV por assinatura, locação de meios de transporte, agências de viagem, serviços de táxi e transporte escolar, entre outros. Assim, é a combinação de fatores como contenção salarial, cortes de custos e/ou de margens de lucros e ganhos de produtividade que pode neutralizar (ou não) as pressões inflacionárias em segmentos aquecidos do setor de serviços. O trabalho de Santos é um passo interessante para uma radiografia menos generalista do fenômeno da inflação dos serviços no Brasil.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 17/10/14, quinta-feira.

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