Por que a frente ampla morre na economia

Apoio a Boulos de Lula, Ciro, Marina e Dino despertou em alguns a esperança de que uma frente mais ampla possa ser costurada para enfrentar Bolsonaro em 2020. Mas há um grande entrave para que liberais e centrodireita também componham em 2022 contra Bolsonaro, até num eventual segundo turno: o abismo entre as visão de política econômica da esquerda e dos liberais.

Fernando Dantas

23 de novembro de 2020 | 20h30

O candidato a prefeito de São Paulo pelo PSOL, Guilherme Boulos, obteve mensagens de apoio para a disputa de segundo turno de um arco de  grandes líderes da esquerda brasileira – ou até centro-esquerda, dependendo da definição.

O ex-presidente Lula, do PT, Ciro Gomes, do PDT, Marina Silva, da Rede, e o atual governador do Maranhão, Flávio Dino, do PCdoB, pediram aos paulistanos para votar em Boulos no segundo turno.

Com exceção de Dino, o mais novato no holofote político nacional, os outros três tiveram conflitos políticos muito sérios entre si nos últimos anos.

Marina, ex-ministra do Meio Ambiente de Lula, não só saiu do PT como tem forte mágoa em relação à forma como sua candidatura foi atacada pela propaganda petista na campanha de 2014, depois de ela ter chegado à liderança nas pesquisas durante a disputa do primeiro turno.

Ciro e Lula trocaram ataques e críticas virulentas durante e após a campanha de 2018, quando o político cearense lutou para ir ao segundo turno, mas foi superado por Fernando Haddad, do PT.

Ciro inclusive viajou para a Europa em vez de se engajar, como era esperado de alguém à esquerda, na campanha derrotada de Haddad no segundo turno de 2018. Recentemente, foi noticiado que Lula e Ciro fumaram o cachimbo da paz.

O apoio dessas quatro personalidades políticas a Boulos está sendo saudado por alguns como um alento na caminhada para uma frente ampla que seja capaz de derrotar o populismo de direita de Bolsonaro em 2022.

De fato, Boulos, um político carismático e que ainda retém um frescor de novidade no cenário político nacional, parece ser alguém de estilo mais agregador do que divisivo. Mesmo que seja derrotado por Bruno Covas, a sua campanha, com todos os apoios mencionados, poderia ser o embrião de um movimento antibolsonarista mais ecumênico.

Há um problema, porém, que é, por enquanto, a ausência de liberais e da centro-direita nessa frente. Obviamente, no caso específico do segundo turno em São Paulo, essa turma tenderia para Covas.

Porém, pensando um pouco adiante, é mais fácil derrotar Bolsonaro se uma frente for ampla o suficiente para agregar o espaço da centro-direita à esquerda.

Ou se, pelo menos, um candidato de centro-direita ou centro-esquerda que vá ao segundo turno em 2022, contra o atual presidente, possa contar com o apoio e o voto daqueles que, em circunstâncias habituais, seriam seus adversários.

Existe, entretanto, uma enorme dificuldade para que esse cenário ocorra, que é a política econômica.

Para as forças políticas de centro-direita (até de centro-esquerda, no caso de Marina), influenciadas pela abordagem de economistas ortodoxos e liberais, a chamada nova matriz econômica do final do governo Lula e primeiro mandato de Dilma foi um erro de proporções gigantescas.

As consequências econômicas daquelas políticas, nessa visão, podem travar o desenvolvimento econômico por muitos e muitos anos, talvez décadas.

Já as principais lideranças de esquerda no Brasil hoje – ou até de centroesquerda, dependendo da definição – defendem políticas econômicas em nível federal que são, para os liberais, o equivalente a reeditar a nova matriz econômica.

A esquerda compreensivelmente não usa a expressão “nova matriz”, porque o termo efetivamente é usado por alguns como uma espécie de arma de propaganda contra ideias mais intervencionistas e menos fiscalistas em economia.

Com exceção de Marina, porém, as outras forças de esquerda, Ciro, PT, PSOL e até Dino (visto como mais centrista) defendem, em grau maior ou menor, uma visão econômica que é radicalmente contrária à crítica liberal à nova matriz.

Ciro é talvez o que foi mais longe nessa linha. Recentemente, publicou um livro, “Projeto Nacional: O Dever da Esperança”, que é um apaixonado e detalhado libelo em favor do nacional desenvolvimentismo, a visão econômica por trás tanto da nova matriz como da era Geisel e de aspectos dos governos de Getúlio e JK.

Todos na esquerda têm críticas, é verdade, a facetas da política econômica de Dilma. As desonerações tributárias para estimular a venda de veículos e bens como eletroeletrônicos, aplaudidas à época por lideranças empresariais, é atualmente uma unanimidade negativa da esquerda à direita.

Mas a crítica da esquerda à política econômica de Dilma é muito menor e muito mais localizada que a liberal. Em certo sentido, é uma crítica quase oposta. É muito comum ver economistas heterodoxos, com ligações com partidos de esquerda, que têm o diagnóstico de que grande parte dos problemas econômicos atuais do Brasil se deve à virada liberal a partir da nomeação de Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda no segundo mandato de Dilma.

Um ponto importante é que, no jargão dos economistas, essa diferença de visão não é normativa, não é sobre julgamentos sobre como organizar a sociedade.

Uma típica diferenciação normativa entre direita e esquerda é sobre o tamanho do Estado, tanto em receitas (impostos), como despesas (gastos). Numa divergência desse tipo, é possível chegar a um meio termo num momento específico em que é preciso ter uma frente.

As diferenças entre a visão liberal e a visão da esquerda brasileira sobre a política econômica nas últimas décadas, no entanto, é “positiva”, sobre a natureza objetiva da realidade. O que um acha que fará bem o outro pensa que produzirá desastre. Não há meio termo possível.

Num país com tanta pobreza como o Brasil, a política econômica é um componente de imensa importância nas plataformas eleitorais. Sem desprezar a relevância da questão da desigualdade, sem crescimento econômico é impossível promover melhoras maciças das condições de vida dos brasileiros menos favorecidos.

Fica complicado, portanto, fazer acordos em relação a uma plataforma mínima comum quando, para um lado, as propostas do outro são o equivalente a promover um cataclismo econômico, e vice-versa.

Praticamente não existe “common ground”, como dizem os norte-americanos, entre o que a centro direita e a esquerda pensam da economia brasileira na atualidade.

Assim, para além de defender a democracia contra as ameaças representadas pelo bolsonarismo – em momentos e questões específicas –, fica difícil ver um “caminho do meio” (como Biden deve tentar trilhar nos Estados Unidos) para derrotar o populismo de direita no Brasil de hoje.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 23/11/2020, segunda-feira.

Tendências: