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Por que câmbio não levanta a indústria?

André Rebelo, economista da Fiesp, aponta caminho das pedras até que real desvalorizado embale exportações e substituição de importações de manufaturados.

Fernando Dantas

04 de março de 2020 | 18h28

Apesar da intensa desvalorização recente do real, a indústria brasileira continua patinando, o que intriga alguns analistas. É verdade que a crise argentina, grande importadora de veículos e outros manufaturados brasileiros, representou uma bola nas costas da indústria nacional no momento em que esta dava sinais de animação após a grande recessão de 2014-2106.

Os problemas do vizinho do Cone Sul, entretanto, não dão conta de explicar por que a combinação de câmbio desvalorizado e juros baixos, que já não é de ontem, não produziu o esperado estímulo ao setor manufatureiro.

Para André Rebelo, economista e assessor de assuntos estratégicos da Fiesp, após um período de 12 anos de sobrevalorização cambial, que ele situa de 2006 a 2018, a indústria brasileira em muitos aspectos tem que “começar do zero” a tarefa de reestabelecer condições operacionais para aumentar a exportação e a substituir importações.

A colocação de Rebelo se assemelha à do economista José Oreiro, da UnB, que recentemente nesta coluna manifestou visão semelhante, mas apontando um período ainda mais longo – 20 a 25 anos – de juros altos e câmbio valorizado (na maior parte do tempo), condições desfavoráveis à indústria.

Em 2007, segundo dados da Camex, as exportações brasileiras de calçados e partes de calçados superaram R$ 2 bilhões. Em 2019, haviam caído quase pela metade. Segundo Rebelo, muitos exportadores da região de Franca (SP) fecharam as portas na fase de câmbio muito valorizado. Posteriormente, surgiram novas marcas (como Democrata e Freeway).

Sem citar empresas específicas, o economista da Fiesp nota que o aprendizado da exportação – agora que as condições cambiais são favoráveis – para os novos entrantes não é trivial. É preciso construir canais, atender determinados padrões de qualidade e estar preparado para encomendas com volumes bem maiores.

Adicionalmente, os potenciais exportadores têm que lidar com um problema de reputação herdado dos exportadores do passado, que era a dificuldade de manter os preços em dólares dos produtos diante de grandes valorizações do real.

Também para substituir importações, em áreas como máquinas e equipamentos, há um caminho das pedras, segundo Rebelo. As empresas precisam investir, e para isto precisam ter um horizonte de cinco a dez anos em que acreditem que as condições de câmbio e juros vão ficar favoráveis.

Isso não quer dizer que essas variáveis macroeconômicas não vão flutuar, como em qualquer economia normal, mas sim que não se caminhará para outro longo período de sobrevalorização cambial e/ou juros muito elevados.

Rebelo exemplifica com as empresas “sistemistas”, que, especialmente na indústria automobilística, trabalham de forma integrada na cadeia de produção das montadoras.

“Elas ainda não estão convencidas de que as condições favoráveis para a produção no Brasil vão permanecer a ponto de justificar fazer a troca de fornecedores internacionais por nacionais”, aponta o economista.

Adicionalmente, para além da questão do câmbio e dos juros, permanecem muitos entraves ligados ao chamado custo Brasil, como tributos pesados e complexos, ambiente de negócios pleno de dificuldades e um grande atraso tecnológico, fruto da falta de investimento durante o período de vacas magras da sobrevalorização – agravado pelo fato de que esta foi uma fase de avanço global de tendências como automação, indústria 4.0 e Internet das coisas.

O economista nota que esse conjunto de problemas afetou principalmente as empresas industriais médias, que fecharam as portas maciçamente. As empresas grandes, com acesso ao mercado de capitais e a crédito externo, mostraram mais capacidade de resistência. Já as pequenas têm mais facilidade para cortar custos indo para a informalidade, e para se beneficiar de esquemas de subsídio como o Simples e outros.

Rebelo considera que de fato houve recentemente uma mudança de regime econômico mais favorável à indústria, que tem uma raiz fiscal. Com a aprovação do teto dos gastos e da reforma da Previdência, o juro caiu e o câmbio se desvalorizou. A reação da indústria a esse novo ambiente, entretanto, será gradativa e ainda depende de muitas reformas, especialmente da tributária.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/3/20, segunda-feira.

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