Por que descolou, descolou por quê?

O que pode estar por trás da tranquilidade do mercado diante de uma cena política tão deteriorada?

Fernando Dantas

19 Julho 2017 | 09h56

O Brasil econômico se descolou do Brasil político, como costuma acontecer em países mais desenvolvidos? A pergunta não é fácil de responder, naturalmente, mas também é difícil de ser ignorada.

Afinal, há menos de dois anos um diagnóstico claro se formou entre os mais respeitados analistas econômicos do País de que, caso não encarasse uma duríssima agenda de ajuste fiscal estrutural, o Brasil em algum momento caminharia para uma crise aguda de solvência. Essa era a chave de interpretação por excelência do período tumultuado que vai do início do segundo mandato de Dilma Rousseff até os dias de hoje.

Resumidamente, a narrativa era de que a combinação de um desequilíbrio fiscal de natureza estrutural e institucional – que vem sendo gestado desde a Constituição de 1988 – com o nacionaldesenvolvimentismo e o abandono da responsabilidade fiscal no governo Dilma foi a gota d’água da grande crise econômica e política iniciada ainda em 2014.

A bomba fiscal longamente maturada e agravada pela política econômica da própria presidente estourou no colo de Dilma no início de 2015. Ela chamou Joaquim Levy para apagar o incêndio, mas foi uma tentativa que deu errado. A presidente perdeu toda a sua governabilidade e, diante da perspectiva de que o governo não conseguiria resolver o problema das contas públicas, o mercado entrou em pânico no segundo semestre de 2015.

No entanto, à medida que foi se desenhando a “solução” do impeachment, o mercado foi sossegando. Com a entrada de Temer na presidência, com seu programa liberal e sólido apoio no Congresso, a agenda fiscal estrutural finalmente poderia ser tocada, e a hipótese catastrófica da dominância fiscal, que assustou o mercado no final de 2015, foi esquecida.

Temer entregou e o mercado melhorou ainda mais, reforçando toda essa narrativa. O teto dos gastos foi aprovado, a agenda microeconômica ressuscitada, o Banco Central e as grandes estatais resgatados, sob aplausos gerais.

Então veio o 17 de maio e o mundo político desabou. Difícil argumentar, mantendo-se a mesma chave interpretativa, que aquilo que Temer já havia feito e o que ainda haveria de fazer (reforma trabalhista) foram suficientes para debelar os temores que criaram o pânico do segundo semestre de 2015.

Afinal, apesar de todos os avanços, da inflação supercomportada e do setor externo sólido como uma rocha, o grande medo era de natureza fiscal. E nesta seara não houve qualquer melhora, muito pelo contrário.

O Brasil continua a uma distância de cinco a seis pontos porcentuais do PIB de um resultado primário que garanta a solvência pública. A receita não deu qualquer sinal convincente de recuperação. O teto de gasto é apenas uma determinação, mas sem nenhum caminho indicado de como poderá ser cumprido. O teto deveria ser combinado com uma dura reforma da Previdência para ser efetivo, e esta foi para o espaço. Não há nenhuma garantia de que um presidente compromissado com as reformas será eleito em 2018. A dívida bruta prossegue em alta.

Por que, então, o mercado reage com calma hoje, e reagiu com pânico em 2015 e janeiro de 2016? É possível pensar em um conjunto limitado de hipóteses. As duas primeiras são as de que ou o mercado estava errado em 2015 (entrando em pânico sem razões para isso) ou que está errado hoje, com excesso de leniência diante dos riscos reais.

O cenário internacional pode ter modulado parcialmente essas reações do mercado, embora os fatos chave não se encaixem nesta leitura. É verdade que o mundo parece estar com um das melhores “caras” desde a grande crise de 2008 e 2009, mas, por outro lado, o Brexit e a vitória de Trump, que trouxeram ondas de nervosismo, ainda que temporárias, aconteceram bem depois do pico de turbulência no Brasil. Os títulos de dez anos dos Estados Unidos hoje estão com uma rentabilidade maior do que no final de 2015 e início de 2016.

Pode-se pensar também que a queda surpreendentemente aguda da inflação sinaliza juro real de equilíbrio menor e, portanto, uma trajetória melhor da dívida pública – mas é difícil achar que este fator por si só tenha debelado todos os temores sobre a solvência fiscal do Brasil.

Resta a ideia de que, de alguma forma, os agentes de mercado supõem que, depois do desastre da nova matriz econômica, a agenda reformista tornou-se inevitável no Brasil, e mesmo candidatos que façam campanhas populistas em 2018 terão que se curvar a ela se e quando começarem a governar. O fato é que os preços atuais excluem de forma clara a combinação entre o diagnóstico fiscal formulado em 2015 e a possibilidade de que um governo efetivamente populista tome as rédeas do Brasil em 2019. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/7/17, segunda-feira.