Por que Dilma reagiu?

Fernando Dantas

12 de setembro de 2014 | 21h21

A reação da presidente Dilma Rousseff na corrida eleitoral mostra que previsões feitas por analistas políticos, algumas delas baseadas em trabalhos empíricos, vêm se mostrando acertadas.

Talvez a mais significativa delas seja sobre a importância do tempo de propaganda eleitoral gratuita na televisão. É comum ouvir que a população acha os programas dos partidos entediantes, que tende a desligar a TV ou não prestar atenção. Mas estudos relevam que, ao contrário, não só a propaganda televisiva (e também a de rádio, em menor escala) funciona, como o tempo que cada candidato tem é muito importante.

Com cerca de 12 minutos, o triplo de Aécio e quase seis vezes o tempo de Marina, a presidente Dilma tem uma expressiva vantagem nesse quesito, que vem sendo explorada com a competência de sempre pelo marqueteiro João Santana.

Alguns fatos razoavelmente bem estabelecidos sobre a relação entre popularidade presidencial e intenções de voto também estão ajudando a presidente neste momento. Na pesquisa da CNI/Ibope divulgada hoje, a avaliação ótima e boa da presidente Dilma subiu para 38%.

O cientista político Octavio Amorim Neto, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio, observa que, no atual nível de aprovação (considerada como a soma de ótimo e bons), Dilma já fica numa zona mais confortável em termos de possibilidade de reeleição, levando em conta cálculos sobre esta relação realizados pelo cientista político Alberto Carlos de Almeida.

Mas por que a popularidade de Dilma se recuperou a partir de níveis bem medíocres, e que indicavam dificuldade de reeleição, há apenas poucos meses? Há, na verdade, um padrão de evolução da popularidade presidencial que aproximadamente se repete em 2013 e 2014 (mas apenas do final do primeiro semestre em diante), sugerindo algum fator sazonal. No ano passado, o pior momento foi, como em 2014, aproximadamente na metade do ano, na sequência das manifestações de junho. A partir daí, a popularidade teve gradual e moderada recuperação nos meses seguintes, como parece estar acontecendo este ano também.

Já um fator estudado e mencionado pelos especialistas é que a própria propaganda eleitoral pode fazer com que a popularidade da presidente suba, à medida que seus programas e uma visão seletivamente positiva do seu governo sejam martelados diariamente para os telespectadores. Ter um grande tempo de TV e um marqueteiro que já se provou vencedor são condições que, sem dúvida, tornam esse fenômeno ainda mais verdadeiro.

Há, finalmente, a questão da propaganda negativa, de eficácia comprovada, mas que sempre cria riscos para quem a pratica. O eleitor pode simultaneamente se convencer das críticas a um candidato atacado e reprovar a agressividade de quem ataca. É uma estratégia que exige, portanto, técnica refinada de marketing que, como observado, não falta à campanha de Dilma.

Marina é uma candidata particularmente vulnerável à propaganda negativa. Ela tem muitos eleitores recentemente conquistados (embora parte já a acompanhe desde 2010), cujos vínculos com a candidata não são tão enraizados. A rala base política da sua candidatura e o fato de que não traz na bagagem uma imagem consolidada de gestora são pontos que podem ser trabalhados em termos de mostrar a distância entre o que prega e o que tem condições de fazer (seja isso verdade ou não).

E há, finalmente, os erros que vem cometendo, como a menção a reduzir a prioridade no pré-sal (posteriormente negada) e o imbróglio de idas e vindas na questão dos direitos dos homossexuais. Diante de episódios desse tipo, não é difícil explorar a imagem de uma candidata inconstante e sem clareza de objetivos, além da possibilidade de provocar medo em relação ao que disse, mesmo que tenha negado depois. A alusão (totalmente absurda, mas não por isso ineficaz) da propaganda petista a perdas de R$ 1,3 trilhão para a educação por causa das posições da Marina sobre o pré-sal é um exemplo disso.

Mesmo na questão da autonomia legal do Banco Central (BC), em que Marina defende com coragem uma ideia racional (mas não incontestável) adotada por dezenas de países, o PT soube distorcer a substância do debate para evocar uma imagem de Marina dominada por banqueiros, reforçada por sua amizade com a educadora e acionista do Itaú Maria Alice (Neca) Setúbal.

“O problema de Marina agora é que, como apenas dois minutos de tempo de TV, ela não consegue se defender de tantos ataques”, comenta Amorim.

Dessa forma, se for confirmado um segundo turno entre Dilma e Marina, será fundamental que a candidata do PSB use os dez minutos que terá então (igual ao tempo da presidente) para montar uma estratégia consistente de marketing político. Marina terá de revelar nesta tarefa a competência que lhe faltou, por exemplo, para montar a sua Rede Sustentabilidade a tempo de se lançar candidata à presidência, o que só acabou acontecendo pela tragédia que matou Eduardo Campos.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 12/9/14, sexta-feira.

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