Por que emprego no Rio caiu tanto?

Efeitos da pandemia no setor de turismo podem ser parte da explicação de por que mercado de trabalho formal fluminense foi, de longe, o que teve pior desempenho no ano da Covid-19.

Fernando Dantas

06 de janeiro de 2021 | 11h01

Entre janeiro e novembro de 2020, segundo os dados do Caged, o Rio de Janeiro teve uma perda líquida de empregos formais de 133.754. É disparadamente o pior resultado de mercado de trabalho formal na pandemia entre todos os Estados brasileiros e o Distrito Federal. Os dados são com os ajustes declarados até novembro de 2020.

O segundo pior desempenho, do Rio Grande do Sul, foi de uma perda líquida de 19.532 postos formais de trabalho. Numa ponderação simples pela população dos dois Estados, a perda proporcional de empregos formais no Rio foi 4,5 vezes maior que a do Rio Grande do Sul, o segundo pior desempenho do Brasil.

Na verdade, os dados do Caged mostram que, de janeiro a novembro, apenas três Estados – além dos já citados, Sergipe, Bahia e Pernambuco – e o Distrito Federal tiveram queda de empregos formais.

Em números absolutos, Santa Catarina, Paraná e São Paulo foram os que tiveram maior alta líquida de emprego formal no período, de respectivamente 67.134, 61.586 e 40.856.

É bom lembrar que dezembro é um mês sazonalmente caracterizado por forte desempenho negativo no Caged, e, portanto, é possível que os resultados finais de 2020, no Brasil e nos Estados, piore.

De qualquer forma, chama a atenção como o resultado do Rio de Janeiro foi destacadamente pior do que o do resto do Brasil.

Evidentemente, múltiplas causas interferem no mercado de trabalho formal, e num ano de pandemia a análise das diferenças de desempenho estadual se tornam ainda mais complexas.

Mas um dos fatores que podem ter influenciado no péssimo resultado do Rio foi a interrupção das atividades de turismo devido ao lockdown no primeiro semestre e, em seguida, ao isolamento social voluntário e ao que restou de restrições oficiais à circulação de pessoas.

Recente pesquisa de Bráulio Borges e Samuel Pessôa, pesquisadores associados do Ibre/FGV, buscou mapear os principais fatores que explicaram o recuo do PIB de 48 países desenvolvidos e emergentes na comparação do segundo trimestre de 2020 com o último de 2019, de forma dessazonalizada.

Na média dos 48 países, de acordo com dados do Banco Mundial, o peso do turismo no PIB é de 3,4%. Apesar dessa participação relativamente modesta, a paralisação do turismo explicou 4,9 pontos porcentuais (pp) da queda  média de 12% do PIB daqueles países no período mencionado. Ambas são médias simples, sem ponderação.

O turismo foi o segundo fator mais significativo a influenciar na queda do PIB dos países. O primeiro foi o grau de isolamento social, medido pelo “Stringency Index”, da Universidade de Oxford, que respondeu por 8 pp da queda média de 12%.

Borges explica que a soma das contribuições negativas em pontos porcentuais do turismo e do isolamento social é maior que a queda de 12% porque há fatores que contribuíram para expandir o PIB, como o tamanho do pacote fiscal para combater os efeitos da pandemia, que teve impacto positivo médio de 2,4 pp.

É possível, portanto, que um dos motivos pelos quais o mercado de trabalho formal do Rio de Janeiro teve um desempenho tão ruim na pandemia seja justamente a importância do turismo na economia estadual, obviamente em função da capital – o Rio é, por vários indicadores, o principal ponto turístico do Brasil.

A economista Camila Saito, da consultoria Tendência, que tem pesquisa recente sobre o assunto, nota que o IBGE não divulga o peso da atividade “turismo” nos seus relatório, mas é possível fazer uma aproximação pelo item “alojamento e alimentação” – que, obviamente, é apenas uma parte do setor de turismo, porque não considera agências de viagens, transportes etc.

Tomando-se ‘alojamento e alimentação’ como uma aproximação para turismo, o peso no PIB fluminense é de 3%, comparado a 2,4% para o resto do Brasil. Ela acrescenta que o Rio tem maior participação de serviços no PIB (76%) do que o Brasil como um todo, com 73%.

Já um Texto para Discussão do Ipea de 2015, de Patrícia A. Morita Sakowski, mostra que o Rio está entre os quatro Estados brasileiros com maior proporção de “atividades características de turismo (ACT)” entre seus estabelecimentos da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), com 8%. Os outros três Estados são Distrito Federal (9%), Roraima (8,6%) e Alagoas (8,5%).

Já em termos de números de empregados em ACTs como proporção de empregados de todos os estabelecimentos, o Rio de Janeiro aparece com a segunda maior taxa entre os entes federados, de 6,8%, perdendo apenas para o Distrito Federal, com 7%. Na sequência estão Rio Grande do Norte (6,7%) e Bahia (6%). A média do Brasil é de 5%.

Segundo a autora do estudo, a importância do turismo no Distrito Federal pode estar superestimada, porque o setor público não é considerado nas estatísticas utilizadas, subestimando o valor da economia.

As indicações, portanto, são de que o baque causado pela pandemia no turismo pode efetivamente explicar por que o mercado de trabalho do Rio foi tão dramaticamente afetado. Nesse sentido, o Rio, mais do que qualquer outro Estado, precisa desesperadamente de que a vacinação seja maciça, eficaz e rápida.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/1/2021, segunda-feira.

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