Por que Levy ainda importa

A posição do ministro da Fazenda está se fragilizando, mas é ilusão pensar que suas recentes derrotas signifiquem que ele já não tem mais um papel crucial a cumprir no atual ajuste econômico.

Fernando Dantas

25 de agosto de 2015 | 22h12

Existe hoje um real desgaste do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que envolve tanto a costura de apoios dentro do PT que permitiu que ele chegasse ao atual cargo quanto a sua relação com o Congresso Nacional. A virulência da recessão atual e a dramática perda de popularidade da presidente aliaram-se à falta de perspectivas claras de recuperação em 2017 e 2018 para minar a sustentabilidade política do atual ministro da Fazenda. Soma-se a isso o estilo de Levy, muito aferrado a princípios, o que dificulta as barganhas do atual governo para garantir a sua própria sobrevivência.

O governo e os dois principais partidos de sua base – PT e PMDB –, entretanto, podem estar subestimando os riscos político-econômicos do cenário de uma eventual saída do ministro da Fazenda do comando da economia brasileira. Para compreender isso, é preciso primeiro examinar a lógica dos que já não veem tanta diferença entre a permanência e a saída de Levy do governo.

É possível pensar, caso Levy saísse, num cenário em que a virada ortodoxa do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff não fosse revertida, mas atenuada. Além disso, há a ideia de que os prejuízos associados à eventual saída do atual ministro da Fazenda já foram em boa parte colhidos.

Não foi possível estabelecer uma política fiscal que dê perspectiva de sustentabilidade para a dívida pública. As novas metas reduzidas de superávit primário dos próximos anos, percebidas como uma derrota de Levy, não “entregam” a dinâmica de dívida que tranquilizaria os mercados. A perda do grau de investimento já é dada como praticamente certa. Evitar a deterioração da dívida e garantir o grau de investimento seriam os grandes objetivos e o alicerce principal do projeto do ministro da Fazenda. Assim, tendo sido frustrados, a presença de Levy já não seria tão importante.

Um argumento complementar é o de que, com o Brasil já tendo contratado um inevitável período de grandes turbulências, seria melhor para os gestores políticos trabalharem com uma margem de manobras um pouco maior. Assim, liberação de emendas para parlamentares ou válvulas de escape para setores influentes – como no caso das recentes linhas subsidiadas para a indústria automobilística – podem ter valor simbólico e ajudar a preservar alianças sem necessariamente piorarem de forma fatal a condução do ajuste econômico.

Mas o problema desse tipo de raciocínio é que ele ignora os muitos exemplos históricos de que, quando se tenta abrir controladamente válvulas de escape populistas ou que atendam a grupos de interesse específicos, na maior parte das vezes o volume de pressão torna-se tão forte que a represa da ortodoxia acaba desmoronando. À medida que a crise fiscal se aprofunda e atinge todos os níveis da Federação, os grupos de interesse tendem a intensificar a sua atuação para minimizar as perdas em um bolo cada vez menor.

Embora na questão específica das emendas Levy talvez pudesse optar por um pouco mais de flexibilidade – já que se trata de um instrumento político que compensa a total falta de coerência ideológica da base do governo no Congresso –, o princípio de tentar negar toda e qualquer demanda por mais gastos num momento de crise fiscal faz sentido lógico. Cada vez que um grupo de pressão prevalece (o que reduz o pedaço do bolo que sobra para os outros, ainda mais quando o bolo está encolhendo), aumenta o assédio dos outros interesses organizados. Levy vem perdendo batalhas, mas a sua presença ainda significa que elas pelo menos têm que ser travadas, e que a represa, mesmo avariada, ainda está de pé.

Assim, o grande risco é que uma eventual tentativa de transição controlada para uma política econômica pós-Levy seja torpedeada por uma recaída populista que o novo líder da equipe econômica não consiga conter. Num momento de agravamento da situação externa, este seria de fato o ingrediente que falta para a chamada tempestade perfeita. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 24/8/2015, segunda-feira.

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