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Carlos Kawall, do Safra, tenta explicar por que a aguardada retomada da economia brasileira está com jeito de ser decepcionante.

Fernando Dantas

21 de outubro de 2016 | 19h23

Depois do tombo, a letargia. A economia brasileira, após cair 7% em 2015 e 2016, pode ficar quase parada em 2017, segundo uma corrente dos analistas que prevê crescimento em torno de 0,5% no próximo ano. É verdade que estes estão no campo mais pessimista do mercado, mas nos últimos dias são os otimistas, que projetavam até 2% para o PIB de 2017, que estão cortando suas previsões.

Um festival de indicadores ruins – indústria, comércio, serviços, proxies do PIB, etc. – jogou as projeções do PIB do terceiro trimestre para território nitidamente negativo. O fundo do poço revelou-se bem mais embaixo, e as perspectivas de ritmo de retomada bem mais acanhadas.

Para Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, que prevê crescimento de apenas 0,5% em 2017, uma das principais razões pelas quais a velocidade de arranque pós-contração no Brasil está tão comprometida é que o país vive uma “recessão de balanço”.

A expressão foi central no diagnóstico sobre a estagnação e o baixo crescimento do mundo avançado após a crise de 2008 e 2009 elaborado pelos economistas Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart.

A ideia é simples. Depois de tempos de euforia que terminam em estouro de bolha, empresas e famílias se veem com excesso de dívidas. Todo mundo tenta se desalavancar ao mesmo tempo, o que compromete a demanda e a renda, tornando mais difícil o saneamento dos balanços: por mais que se reduza a dívida, caem também os rendimentos de onde saem os recursos para servi-la.

No Brasil, Kawall vê um recorte muito peculiar de recessão de balanço. A dívida subiu, mas nada comparável aos excessos do mundo rico. O problema, porém, é que a recessão foi tão brutal que, especialmente no caso das empresas, houve uma drástica queda de faturamento e receita líquida, que torna a desalavancagem muito mais difícil, segurando os investimentos. É claro que a grande ociosidade aberta em diversos segmentos da indústria também inibe as inversões.

Por um lado, há pouca dúvida de que o processo de enfraquecimento do mercado de trabalho, do salário e do consumo se dá defasadamente (em momento posterior) em relação à recessão produtiva, e que, portanto, não é daí que virá o motor inicial de arranque da retomada. Tampouco o setor externo, em fase de baixíssimo crescimento do comércio global, terá condições de representar este papel. Resta, portanto, o investimento, que poderia repicar na onda de retomada da confiança com o relativo sucesso inicial da política econômica do governo Temer.

É aí, porém, que mora o problema, na visão de Kawall. O crescimento do saldo de crédito total em 12 meses ficou negativo em 0,6% em agosto, com queda de quase 5% para empresas e crescimento de 4% para pessoas físicas. Este saldo total em 12 meses, é bom lembrar, é o indicador que crescia a 40% em 2008 e que ainda em 2013 crescia a 13% (e a 10% até meados de 2015). Desde 2009, os números para empresas são em geral piores do que os das pessoas físicas.

A razão entre dívida líquida financeira e EBITDA das empresas abertas não-financeiras (excluindo Petrobrás) estava em 3,43 no segundo trimestre de 2016, já com redução ante os 4,06 do primeiro trimestre, mas quando o desejável seria um nível entre 2 e 2,5, segundo Kawall. Ele usou dados coligidos pelo centro de estudos CEMEC/IBMEC.

Desde 2015, a razão entre EBITDA e serviço da dívida das empresas abertas não-financeiras (excluindo Petrobrás) é menor que 1 (0,69 no segundo trimestre de 2016), o que significa que as firmas não estão fazendo resultado suficiente para servir a dívida. Na verdade, 55% das 605 empresas abertas não-financeiras tinham EBITDA menor que o serviço da dívida financeira no segundo trimestre de 2016.

A inadimplência vem crescendo desde o início de 2015, e a queda na margem que ocorreu recentemente está ligada ao aumento de renegociações e reestruturações de dívida.

Mesmo a Petrobrás, nota Kawall, está em pleno processo de contenção de empresas operacionais e de investimentos, e de venda de ativos.

“Estamos numa crise em que o setor empresarial ficou com endividamento excessivo por causa da queda das receitas, e vai demorar muito tempo para que voltemos ao nível de faturamento do passado – no setor automotivo se fala até em dez anos para que se volte aos níveis de demanda prévios”, comenta o economista.

Assim, o investimento, que caiu durante dois anos e meio, acumulando um tombo de 25%, poderia voltar mais rapidamente, mas este movimento é tolhido pela capacidade ociosa, alavancagem, reflexos da Lava-Jato na construção, etc.

O programa de concessões e privatizações pode ajudar, mas é mais rápido vender ativos, como empresas elétricas, do que tocar o processo lento e laborioso de colocar de pé novos investimentos em infraestrutura. Ainda assim, para Kawall, a solução passa inevitavelmente pela privatização, capitalização, saneamento financeiro e venda de ativos. Neste sentido, ele conclui, “o capital estrangeiro tem um papel fundamental a desempenhar”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/10/16, sexta-feira.

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