Por que o mercado está tranquilo com Dilma?

Piora antes da eleição já incorporou boa parte do pessimismo no preço de ações e outros ativos financeiros. E vários dos nomes que circulam para o Ministério da Fazenda são do agrado do mercado.

Fernando Dantas

29 de outubro de 2014 | 12h49

O bom desempenho do mercado nessa terça-feira (28/10/14) é visto por analistas como uma combinação do fato de que grande parte do pessimismo em relação à vitória de Dilma Rousseff já tinha sido incorporado nos preços na reta final da eleição – quando subiu bastante a probabilidade de reeleição – com a boa receptividade a nomes que vêm sendo cogitados como futuros ministros da Fazenda. Dos rumores mais recentes constam Luiz Carlos Trabuco, presidente do Bradesco, Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central (BC), e Nelson Barbosa, ex-secretário executivo do Ministério da Fazenda.

Bráulio Borges, economista-chefe da LCA, menciona recente estudo da consultoria que trabalha com três cenários em torno de três grandes conjuntos de projeções para o câmbio. No primeiro, considera-se um cenário compatível com o atual rating soberano do Brasil na S&P, de BBB-, um degrau acima do mínimo para ter grau de investimento (BB+). Na segunda, a suposição é que os mercados veem uma probabilidade de 50% de que o Brasil venha a perder o grau de investimento. E, na terceira, trabalha-se com chances de 100% para a mesma hipótese. O exercício inclui a comparação do Brasil com países com o mesmo rating na S&P, como Índia, África do Sul e Uruguai, ou um degrau abaixo, como Indonésia e Turquia.

“Pela ótica desse nosso exercício, antes mesmo da queda da segunda-feira (27/10) os mercados já estavam precificando uma chance de 50% a 60% de rebaixamento do rating do Brasil”, diz Borges. Isso explica, na sua visão, porque ontem, mesmo com queda da bolsa e alta do dólar, a reação do mercado ficou longe dos piores temores pré-eleitorais.

Hoje, segundo o economista, está pesando favoravelmente – explicando a alta do mercado – a circulação de nomes como Trabuco, Meirelles e Barbosa para a Fazenda.

“É uma sinalização de uma equipe mais ortodoxa e mais autônoma em relação à presidente Dilma”, ele diz.

A duração da calmaria, porém, depende dos próximos passos, na visão de Borges. “Se o Aécio vencesse, ele teria o bônus da credibilidade e a lua-de-mel duraria bastante, mas com Dilma é mais na base de ‘ver para crer’”, analisa.

Ele considera que a política fiscal é central, e o mercado estará atento à meta fiscal de 2015. Segundo Borges “teria que ser um superávit primário (do setor público consolidado) entre 2% e 2,5% do PIB para dar sustentabilidade à trajetória da dívida, mas o mercado estará atento à qualidade desse superávit, e espera que seja com uma participação bem menor de receitas atípicas do que foi no ano passado”,

Um gestor com passagem pelo governo vê um conjunto de razões para o comportamento relativamente bom do mercado após a reeleição de Dilma. Ele acha que a grande incerteza dos resultados durante a campanha, com idade e vindas, levou muitos fundos a baixarem o nível de risco. “Assim, diminui o espaço de overshooting tanto para um lado quanto para o outro”, explica.

Adicionalmente, o mercado preparou-se para a vitória de Dilma na semana passada, a partir do momento em que as pesquisas passaram a indicar que ela teria boas chances de ganhar. Segundo essa fonte, os estrangeiros até tomaram mais risco em ativos brasileiros: “Os estrangeiros têm uma visão mais pragmática que os locais, operam em diversos países, e são atraídos pelos juros comparativamente altos do Brasil – eles foram a contraparte para quem reduziu o risco recentemente”, diz.

O gestor observa também que, com muitas instituições preparando-se simultaneamente “para o pior” com a vitória da Dilma, acabou ocorrendo a reversão típica ilustrada pela conhecida frase ‘compre o boato e venda o fato’.

Adicionalmente, o discurso e as entrevistas em tom de conciliação da Dilma depois da vitória contribuíram para desanuviar nervos no mercado. Finalmente, vieram os nomes de agrado de investidores e participantes do mercado financeiro. Essa fonte considera que Trabuco e Meirelles são nomes vistos como muito positivos pelo mercado, com Barbosa num plano intermediário.

Mas nem todos estão tão bem impressionados pelos passos iniciais de Dilma depois de reeleita. José Márcio Camargo, economista-chefe da gestora Opus, no Rio, considera que o comportamento do mercado pós-eleição “está ao sabor da especulação, já que até agora não há nenhum sinal concreto do que vai ser o novo governo”. Ele acrescenta que “se amanhã surgir um boato de que o ministro da Fazenda vai ser o Arno (Augustin, atual secretário de Tesouro, e mal visto pelo mercado), mesmo que não seja verdadeiro, as coisas ficarão ruins de novo – qualquer especulação vai fazer praça até que haja definições de verdade”.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 29/10/14, terça-feira.

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