Coluna

Thiago de Aragão: China traça 6 estratégias para pós-covid que afetam EUA e Brasil

Por que o mercado melhorou?

Desde meados de maio, no mundo e no Brasil, bolsas sobem, moedas se valorizam ante o dólar e o risco cai. Será a luz no fim do túnel?

Fernando Dantas

03 de junho de 2020 | 19h17

Desde meados de maio, houve grande melhora nos mercados globais, com forte reflexo no Brasil. Na verdade, os ativos brasileiros sofreram mais do que os da média dos emergentes nos piores momentos do impacto econômico da pandemia, e agora também estão se recuperando mais rápido.

Até ontem, como nota Armando Castelar, pesquisador do Ibre/FGV, o dólar já havia caído 12% ante o real desde o pico mais recente, comparado a 5% para a média dos emergentes. Ainda assim, desde o início do ano, a desvalorização da moeda brasileira permanece muito maior do que a da média dos emergentes.

A virada positiva começou em 13 de maio. O MSCI (índice do mercado acionário em dólares) do Brasil subiu 26% desde então (até ontem), contra 5% de alta do MSCI dos emergentes como um todo. E o CDS do Brasil também caiu um pouco mais (100 pontos contra 87) do que o dos emergentes.

O que isso quer dizer? Em relação ao Brasil especificamente, Livio Ribeiro, também do Ibre, nota que a desvalorização do real em abril pode ter sido reforçada por fatores domésticos – como reação deficiente contra a pandemia e tensões políticas –, e a devolução recente pode ter sido certa “devolução” daqueles fatores internos, como a percepção de que também aqui o pico da contaminação está próximo ou já foi atingido.

No caso do período mais recente, porém, o pesquisador ainda está “medindo” o componente externo e doméstico no seu modelo.

De qualquer forma, está bem claro que a dinâmica principal a mover os ativos brasileiros é externa.

E a grande questão é o descompasso entre a forte recuperação dos mercados globais e as perspectivas que se enxergam agora para a economia real no mundo. Ninguém vê um boom chegando depois da pandemia, muito pelo contrário.

É verdade, por um lado, que o momento de maior pessimismo em relação ao ritmo da retomada dos países pós-Covid parece ter passado.

A China, depois de ter caído 6,8% no primeiro trimestre (auge da pandemia no país), em relação ao mesmo período de 2019, pode crescer mais de 3% no segundo trimestre, na mesma base de comparação. Ainda não é exatamente a volta a um “crescimento chinês”, mas indica que a recuperação pode ser mais rápida do que se chegou a imaginar.

Em outros países, a trajetória da retomada não tem necessariamente de ser como a da China e outras nações asiáticas, em que a pandemia foi suprimida com muita eficácia. Mas há, em contrapartida, os gigantescos pacotes fiscais e injeções monetárias das autoridades econômica nos Estados Unidos e na Europa, que superam os da crise global de 2008-2009.

Nos Estados Unidos, em particular, como nota Castelar, a expansão monetária foi imensa, o que lhe faz indagar (longe de ter certeza) se o recente recuo do dólar pode estar significativamente ligado a esse fenômeno e, o que mais importa, se pode perdurar.

Uma ambiente de dólar em baixa, se for mais que um fenômeno muito passageiro, é positivo para emergentes como o Brasil, especialmente porque normalmente é acompanhado da alta dos preços das commodities (que também se recuperaram desde meados de maio).

Entretanto, as incertezas que rondam o mundo e o Brasil são tamanhas que é muito precipitado enxergar luz no final do túnel. O enorme comprometimento fiscal dos países, o risco de “bolha dos bancos centrais” e a possibilidade de novas ondas da pandemia deixam tudo em suspense.

O mais prudente é reforçar os fundamentos enquanto se torce para que o pior tenha passado. No Brasil, porém, a péssima reação à pandemia e o pandemônio político tornam difícil ir além da torcida para que o pior tenha passado.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/6/2020, quarta-feira.

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