Por que o mercado ainda rejeita Lula?

É muito anormal que o principal político de um partido que esteve 13 anos no poder e presidiu uma das melhores fases econômicas recentes continue apavorando os agentes econômicos. Isto não deveria ser motivo de orgulho para a esquerda, mas sim de reflexão e autocrítica.

Fernando Dantas

26 de janeiro de 2018 | 20h04

A euforia dos mercados com a redução das chances de Lula levar a termo a candidatura a presidente da República deveria ser um tópico de reflexão para a esquerda no Brasil.

Numa leitura inicial, de acordo com alguns surrados chavões, nada mais natural. Lula defende o interesse dos pobres, que são opostos aos dos ricos. Assim, o mercado, onde os privilegiados fazem seus negócios e negociatas, celebra a possibilidade de que os pobres fiquem sem candidato competitivo este ano.

Numa leitura um pouco menos superficial, entretanto, a ojeriza dos investidores a Lula nada tem de trivial. É comum que os mercados reajam mal à chegada da esquerda no poder quando este fato acontece pela primeira vez – ou quando ocorre após um período realmente muito longo em que esta corrente política esteve fora do poder.

Foi o caso, por exemplo, da eleição de François Mitterrand como presidente da França em 1981. O estranhamento inicial nessas ocasiões não se deve ao fato de que os investidores pensem que o candidato de esquerda tem como objetivo destruir a economia de mercado. Na verdade, o temor é de que anos a fio no papel de pedra, denunciando as injustiças do sistema, deixem um candidato de esquerda despreparado para assumir o papel de vidraça. Assim, apesar das boas intenções, vai errar muito, tomar muitas medidas desastradas e contraproducentes, até encontrar uma fórmula de gerir bem a economia ao mesmo tempo em que reforça a redistribuição de renda.

Foi isso que aconteceu com Mitterrand, e hoje a perspectiva de eleição de socialistas na França mexe muito pouco com o mercado. Macron, o atual presidente de centro, entrou na política pelo Partido Socialista. No Chile, centro-direita e centro-esquerda se revezam no poder sem maiores sobressaltos.

O que chama atenção no caso de Lula é que o PT ficou 13 anos no domínio do Poder Executivo Federal e presidiu um dos melhores momentos econômicos do Brasil nas últimas décadas. O PT também já passou há 15 anos pelo seu batismo de fogo de partido de esquerda chegando pela primeira vez ao poder, na turbulência de 2002 e 2003. E o PT, como outras forças do mesmo lado do espectro político em outros países democráticos, apaziguou os ânimos de quem julgava que iria incendiar o País e destruir a economia de mercado: manteve o tripé macroeconômico, atuou com responsabilidade fiscal até um certo momento e até fez uma reforma da Previdência.

Em resumo, tudo indicaria que já era para ter ocorrido no Brasil uma “graduação” democrática, pela qual a partir de certo momento da evolução institucional o revezamento no poder das forças políticas mais à esquerda e mais à direita se dá dentro da normalidade não só política, mas também econômica.

Assim, não é nada normal que um partido como o PT, que na prática pode ser considerado de centro-esquerda, e que teve uma longa experiência como “vidraça” no comando do País, continue despertando quase pânico dos agentes econômicos e financeiros representados nos mercados. Existem países que distribuem renda de forma muito mais pesada que o PT jamais sonhou fazer no Brasil – basta pensar na Escandinávia – e nem por isso investidores entram em pânico quando a maré política vira para a esquerda.

A rejeição dos mercados a Lula não deveria ser vista como uma razão de orgulho para a esquerda, mas sim como motivo de preocupação. Para começar, como procurei argumentar acima, ela não tem nada de normal. Não é o que seria de se esperar a esta altura do campeonato.

No fundo, as pessoas que detêm o capital, sem o qual não é possível criar prosperidade numa economia de mercado, temem não uma postura agressivamente distributiva da renda por parte de um eventual governo Lula (se fosse assim, haveria pânico nos mercados sempre que um partido socialdemocrata chegasse ao poder na Europa setentrional), mas sim uma incompetência absoluta para gerir a economia.

Com a aventura desastrada da nova matriz econômica, Lula destruiu o capital de confiabilidade em termos de gestão econômica que construiu com grande destreza no início do seu primeiro mandato.

O pior, porém, é que o ex-presidente teria condições hoje de, diante da experiência concreta dos dois momentos diferentes da política econômica em seu governo e no de Dilma, fazer uma autocrítica e sinalizar que, se voltasse ao poder, o PT resgataria a bem-sucedida experiência de 2003 a 2005.

Mas não, Lula e o PT estão fazendo exatamente o oposto. Todo o discurso atual na seara econômica vai na direção de dizer que a nova matriz será retomada em um novo governo petista (obviamente não se utiliza este termo). Talvez haja motivação política por detrás dessa estratégia, de agradar as bases do partido. Mas é muito deprimente em termos de evolução institucional do Brasil que os agentes econômicos estejam tratando o Lula de 2018 como o Lula de 2002 ou, quem sabe até, o Lula de 1989. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/1/18, sexta-feira

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