Por que o PIB está tão devagar?

Uma série de causas, algumas mais óbvias, outras mais originais, são identificadas para explicar por que, depois de uma das piores recessões da história brasileira (2014-2016), a recuperação está devagar, quase parando.

Fernando Dantas

16 de maio de 2019 | 11h10

Com as projeções de crescimento em 2019 convergindo para 1% (já há previsões até abaixo disto), a frustração com a retomada após a recessão de 2014-2016 torna-se tão forte que fica difícil ficar só na explicação da falta de confiança pela incerteza em relação à reforma da Previdência. Afinal, será o terceiro ano consecutivo ao ritmo de tartaruga de 1%.

Explicar uma frustração desse tamanho exige naturalmente se examinar um conjunto de fatores, alguns mais batidos e reconhecidos, outros menos óbvios.

Além dos já muito comentados choques de oferta de 2018 (greve dos caminhoneiros, estresse eleitoral, crise argentina afetando exportações) há, para início de conversa, o fator confiança mesmo, que não deve ser descartado, ainda que não possa ser visto como causa única.

Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, nota que a economia brasileira há três ou quatro anos vêm passando por uma série de situações binárias em termos de confiança: impeachment ou não de Dilma, aprovação ou não da reforma da Previdência de Temer, eleição de um presidente com plataforma econômica liberal ou populista, aprovação ou não da reforma da Previdência de Bolsonaro.

Do ponto de vista da percepção do mercado e dos investidores (acertada ou não) em cada um desses momentos, fica-se entre um cenário desastroso e outro não desastroso. Esse tipo de insegurança extrema, naturalmente, inibe investimentos.

Mas não dá para parar por aí. Ainda que necessário, o ajuste fiscal retira demanda da economia. O crescimento real do gasto público federal, que vinha num ritmo de quase 6% ao ano nas últimas décadas, caiu para praticamente zero nos últimos três anos. A crise que se alastra pelas finanças estaduais só piora esse quadro.

Outro fator frequentemente mencionado é a característica da recessão de 2014-2016 de ter ocorrido depois de um ciclo forte de endividamento de famílias e empresas. Os impactos desse tipo de “ciclo financeiro” sobre a atividade econômica costumam ser mais prolongados do que os do “ciclo de negócios” tradicional.

Um grande debate adicional é sobre o nível da taxa de juros real. Para um grupo expressivo de economistas, a chamada taxa de juro real neutro brasileira pode ter caído mais do que a avaliação convencional, por uma série de fatores (alguns até internacionais ou comuns a várias economias emergentes). Neste caso, a atual Selic de 6,5%, na sua baixa recorde, pode estar sendo menos estimulativa do que tem julgado o Banco Central.

Um freio na economia já mencionado há bastante tempo, mas que Kawall crê que possa ser bem mais forte que o usualmente suposto, é o impacto pelo lado da oferta da Lava-Jato na construção civil.

Ele observa que a construção está caindo pelo quinto ano consecutivo, acumulando uma queda de 30% em relação a 2014. Parte disso tem a ver com a construção residencial e comercial, afetada pelo recuo da demanda e do crédito. Uma outra parcela, entretanto, tem a ver com projetos paralisados ou se arrastando por questões jurídicas, e não por falta de recursos, em setores como aeroportos, metrô, rodovias, petróleo e gás etc.

Finalmente, um fator novo que pode explicar a lentidão da retomada, e que começa a ser pesquisado por Kawall e outros economistas, é o aumento da poupança doméstica brasileira pós-crise, especialmente das famílias. Um fenômeno semelhante ocorreu nos Estados Unidos pós crise de 2007-2009.

A razão é que estouros de bolhas de endividamento tendem a criar um efeito “gato escaldado” em famílias e empresas. Adicionalmente, no Brasil a recessão também colocou em xeque o modelo de expansão acelerada das transferências previdenciária e sociais pelo setor público, com a perspectiva de reforma da Previdência e de endurecimento das benesses em geral. Os cidadãos reagem percebendo que terão que poupar mais para a velhice e para as adversidades imprevisíveis da vida.

Kawall alerta que essa é uma hipótese que apenas começa a ser avaliada, e para teste da qual há certa carência de dados disponíveis.

Se essa visão estiver correta, entretanto, as implicações são interessantes, e não necessariamente negativas em sua totalidade. Num primeiro momento, o aumento de poupança, por se dar em detrimento do consumo, freia a economia, especialmente porque a incerteza impede que o investimento preencha a lacuna.

No médio e longo prazo, entretanto, uma taxa maior de poupança doméstica pode sustentar um modelo de crescimento mais baseado no investimento do que no consumo, e menos dependente da poupança externa. A experiência internacional, e especialmente asiática, sugere que esse tipo de modelo de crescimento é mais sustentável para economias emergentes.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/5/19, quarta-feira.

Tendências: