Por que o real sobe

Fatores internos e externos que explicam valorização recente do real.

Fernando Dantas

29 Junho 2016 | 10h40

Uma conjunção de fatores externos e internos explica a valorização recente do real, segundo a detalhada análise de um conhecido e respeitado gestor de recursos. No cenário internacional, ele observa que quatro importantes fatores de risco tiveram evolução favorável recentemente.

O primeiro deles é a política monetária norte-americana. A expectativa sobre o número de elevações este ano dos Fed Funds, a taxa básica, vem se reduzindo paulatinamente. Chegou-se a se cogitar em quatro altas, mas agora já se discute se haverá ou não uma elevação na derradeira reunião este ano do FOMC (comitê de política monetária dos Estados Unidos) em dezembro).

A percepção de um ciclo de normalização monetária mais suave e estendido ao longo do tempo reforçou-se com a divulgação dos dados do mercado de trabalho americano em maio, com a criação de apenas 38 mil postos de trabalho, bem abaixo da média em torno de 210 mil nos seis meses anteriores.

Como observa o gestor, a expectativa de menos alta dos Fed Funds em 2016 também afeta os anos à frente, com pressão baixista sobre a curva de juros. Os títulos do Tesouro americano de dez anos, a 1,7% no início desta tarde, estão em território real negativo ante a expectativa de inflação de 1,8%.

“O dólar é a moeda de reserva do mundo e a principal referência de custo de oportunidade”, ele diz, assinalando que esses últimos desdobramentos da política monetária nos Estados Unidos mudam o quadro de disponibilidade de liquidez no mundo todo.

O segundo fator de risco é o referendo do Brexit (sobre a saída do Reino Unido da União Europeia), a ser realizado amanhã. A possibilidade de vitória do sim é vista como bastante prejudicial à economia britânica, com possíveis efeitos secundários na Europa e em outras partes do mundo, além de contribuir para a instabilidade geopolítica. O resultado é imprevisível, mas as pesquisas já penderam mais para a vitória do sim do que agora, à véspera do referendo.

(a coluna foi publicada antes do referendo, que surpreendeu com a vitória do Brexit – ainda assim, a reação do câmbio no Brasil foi tímida, e em alguns dias o real voltou a se valorizar)

Como terceiro fator, ele cita o recorrente temor de um pouso forçado da economia chinesa. Medidas recentes de estímulo de crédito e fiscal a governos locais tiveram algum efeito de estabilizar as expectativas, e a sensação é que se ganhou pelo menos uma janela de alguns meses em que é possível se preocupar menos a China.

Finalmente, há o risco de Donald Trump se eleger presidente dos Estados Unidos, com sua agressiva plataforma populista e a determinação de tomar medidas protecionistas, que só prejudicariam ainda mais o combalido comércio mundial. Na verdade, a campanha de Trump vive um de seus piores momentos, com índices de rejeição extremamente altos do virtual candidato republicano e seriíssimos problemas de financiamento. De acordo com recentes informações oficiais, a campanha da democrata Hillary Clinton contava com US$ 42 milhões, comparado a apenas U$ 1,3 milhão de Trump.

Ainda no cenário internacional, além da evolução favorável desses quatro fatores de risco no último mês e meio, houve alguma reação do preço das commodities, como pode ser observado com o petróleo, mas que foi mais forte ainda no caso de matérias-primas agrícolas que o Brasil exporta, como soja.

O gestor frisa que o fator mais importante são os juros norte-americanos, mas, no curtíssimo prazo, um evento decisivo será o referendo do Brexit. Em caso de vitória do não, o apetite de risco guiado pela alta liquidez internacional pode ganhar impulso adicional, na forma de mais pressão por apreciação de moedas como o real.

Já no cenário doméstico, o evento decisivo a curto prazo será a votação do impeachment em agosto. Porém, segundo o gestor, o mercado já está reagindo ao fato de que “a agenda econômica começou a andar”, não só com medidas como a PEC do limite do gasto público e o acordo com os Estados (que gera custo fiscal, mas é visto por alguns como inevitável), mas também com trâmite efetivo de medidas no Congresso: redefinição do déficit primário de 2016, DRU, participação em até 100% de capital estrangeiro nas empresas aéreas, lei de governança das estatais e votação de algumas MPs.

Houve andamento também, pelo lado contrário, de medidas de expansão fiscal, como o aumento dos servidores, mas que são vistas por alguns analistas como o “preço a pagar” pela costura do apoio político no Congresso à agenda do governo Temer.

“Tudo isso foi feito em 35 dias – o País, que antes estava à deriva, agora está sendo gerido por alguém que dá mostras de conseguir uma maioria operacional no Congresso”, comenta o gestor.

Ele chama a atenção ainda para um fator especificamente cambial, que é a sazonalidade favorável de maio e junho, em que a balança comercial tende a ter seu melhor momento, com fatores como a entrada de dólares vinculada à soja, enquanto que as remessas financeiras tendem a se concentrar no final do ano. E, finalmente, o mercado para captações externas por emissores brasileiros reabriu-se nos últimos 40 dias, depois de um longo período fechado. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada em 22/7/16, quarta-feira.