Por que os políticos não reagem à crise?

O economista Samuel Pessôa detectou, em conversas com importantes políticos não petistas (alguns da base do governo), uma postura determinada em tirar o PT do poder, por medo do que seria um projeto bolivariano autoritário do partido. Pessôa diz que não importa se isso corresponde à realidade ou não - é esta percepção que estaria bloqueando uma saída política para a crise fiscal.

Fernando Dantas

02 de dezembro de 2015 | 16h11

Por que a atual crise econômica é tão intensa e demorada? Por que, à medida que o tempo passa, ela parece se aprofundar, sem que surja de fato alguma luz no fim do túnel? São perguntas que, a esta altura, podem parecer banais, mas que na verdade não foram até agora satisfatoriamente respondidas. No início deste ano, ninguém previa que chegaríamos perto do seu fim na situação em que o País se encontra.

Um primeiro pedaço da resposta às indagações acima parece já estar se cristalizando entre os analistas: a crise é tão devastadora porque, diante da deterioração fiscal, o sistema político – incluindo Executivo e Legislativo, e a relação entre os dois – não consegue reagir à altura. Mas a grande questão permanece: por que não reage?

O economista Samuel Pessôa, sócio da gestora Reliance, e pesquisador associado do Ibre-FGV, vem ensaiando uma resposta a esta última pergunta.  Ele tem refletido bastante sobre diversas conversas que teve, no início deste ano, com importantes políticos da oposição ou que pertencem à base de sustentação do governo, mas não são petistas.

Pessôa se recorda de certo sentimento de incongruência, à época, entre o que ouvia dos políticos e as projeções econômicas que ele próprio e todo o mercado faziam. O economista previa um superávit primário de 0,5% do PIB em 2015, inferior à meta de 1,2%, mas que pavimentava um caminho para se chegar a 1,5% e 2% em, respectivamente, 2016 e 2017.

Nas conversas com políticos, entretanto, Pessôa notava um clima muito diferente daquele em que se movimentou de 2004 a 2010, quando atuou como assessor parlamentar do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Ele ressalva que não está falando das posições específicas de Tasso, mas do clima nas duas Casas do Congresso.

À época, havia canais de diálogo entre situação e oposição, e esta contribuiu com votos para aprovar uma série de iniciativas do governo, como a reforma da Previdência do funcionalismo, a minirreforma tributária, a Lei da Inovação, a Lei do Bem, todo o pacote de reformas do sistema de crédito, incluindo a Lei de Falências, e o Pró-Uni, entre outras.

Hoje, os canais parecem rompidos, e até aprovar a Desvinculação das Receitas Tributárias (DRU) é uma guerra extenuante para o governo.

Os políticos com quem conversou no início do ano ofereceram a Pessôa uma explicação para essa mudança. Nas palavras do economista, “o que eu compreendi foi que os políticos não petistas, excluindo os partidos mais à esquerda, se convenceram de que o PT tem de fato um projeto hegemônico bolivariano autoritário, e transformaram em objetivo máximo tirar o PT do poder – e isto dinamitou todos os canais de cooperação com a oposição”.

O economista ressalva que, do ponto de vista dos efeitos econômicos, é indiferente se esse diagnóstico dos políticos não petistas sobre as intenções do partido é verdadeiro ou não. O importante é que se tornou uma percepção dominante, que bloqueia a possibilidade de se chegar a um entendimento para enfrentar a crise fiscal.

Entender por que o sistema político não petista assumiu essa postura é, para Pessôa, uma questão mais complexa. Ele pensa numa série de possíveis razões, mas chama a atenção para o fato de que a virulência da última campanha eleitoral, seguida pela intensidade do estelionato eleitoral, provavelmente pode ter sido uma relevante gota d’água na cristalização dessa imagem negativa do PT.

Pessôa vê consequências muito graves nesse nó político. Para ele, o Brasil, desde meados da década de 90, se organizou lenta e penosamente para funcionar dentro de um figurino socioeconômico “civilizado”, mas a crise fiscal agora está impelindo-o em direção contrária, à da “bagunça” que caracterizou décadas da história econômica do pós-guerra, mesmo quando se crescia velozmente. Neste sentido, esta crise é pior do que todas as outras do passado recente, que balançaram o País, mas não o tiraram da rota.

Ele nota que há um custo hoje em voltar à “bagunça”, que pode justamente corresponder à forte queda absoluta do PIB que ocorre neste ano e também em 2016 (no mínimo). “Por exemplo, não dá para ter 50% do PIB de crédito na bagunça, é muito difícil fazer concessões (de serviços públicos)”, ele observa.

Para Pessôa, “a crise colocou em xeque a continuidade do nosso avanço rumo a uma economia civilizada, e, a menos que surja a capacidade do sistema político de lidar com nossos problemas estruturais, vamos voltar para a bagunça”, conclui o economista.

(fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News Broadcast em 30/11/15, segunda-feira.

Tendências: