Por que parou (de cair)? Parou por quê?

Juros futuros, que vinham em trajetória de queda desde que vitória de Bolsonaro se consolidou no ano passado, parecem ter encontrado um piso. E pode ser que seja por causa da inflação.

Fernando Dantas

02 de maio de 2019 | 18h08

A queda dos juros no mercado futuro privado, tendência dominante desde que a vitória de Bolsonaro se consolidou no ano passado – e da qual os desvios vinham acontecendo nos muitos momentos de barbeiragens políticas do atual governo – parece ter se esgotado, a julgar pelo que vem ocorrendo de fevereiro para cá.

A queda dos juros no mercado futuro privado, tendência dominante desde que a vitória de Bolsonaro se consolidou no ano passado – e da qual os desvios vinham acontecendo nos muitos momentos de barbeiragens políticas do atual governo – parece ter se esgotado, a julgar pelo que vem ocorrendo de fevereiro para cá.

Só que agora o que parece estar segurando os juros já não é tanto a aflição do mercado em relação ao que acontecerá no front da reforma da Previdência – embora, evidentemente, notícias ruins nesta área mantêm o poder de empinar as taxas –, mas sim preocupações com inflação e, consequentemente, certa murchada nas apostas de novos cortes da Selic este ano (embora esta possibilidade ainda está longe de ter sido totalmente descartada).

É verdade que o Banco Central se preocupa mais com a tendência subjacente da inflação do que com altas provenientes de choques de oferta, como no caso dos alimentos in natura e dos combustíveis, que explicam a surpresa para cima nas últimas divulgações do IPCA.

Ainda assim, o regime do Brasil tem a inflação cheia como meta, e o Copom não é completamente indiferente ao que ocorre com o IPCA total, especialmente se elevações, ainda que mais por fatores de oferta do que demanda, se mantêm por períodos mais longos.

Existe no horizonte atual – e o mercado está bem atento a isto – um risco de um novo choque de oferta, e oriundo do mercado internacional e potencialmente mais persistente. Trata-se dos possíveis efeitos da febre suína na China, que já levou ao sacrifício de mais de um milhão de animais, sobre toda a cadeia de proteínas global.

“Há uma preocupação com uma segunda onda de pressões de oferta no IPCA no segundo semestre, por causa dos impactos da gripe suína na China”, diz Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP no Rio.

Esse é um fator que reforça a preocupação com a inflação, o que pode explicar o comportamento recente dos DIs (mercado futuro de juros). Rocha nota que o vencimento de janeiro de 2021, que chegou a ser cotado abaixo de 7% no início de fevereiro (e na terça-feira passada), estava sendo negociado a 7,16% quando esta coluna conversou na manhã de hoje (terça-feira, 30/4) com o analista.

E, embora o dólar – cujas oscilações, na conjuntura atual brasileira, são percebidas como mais ligadas ao risco político e fiscal interno e ao apetite por risco externo – também tenha subido desde o início de fevereiro, de forma até mais drástica que os DIs, a ligação entre as oscilações de mais alta frequência dos dois ativos parece menos clara.

Com também observa Rocha, o dólar hoje (terça-feira, 30/4)  está cotado a R$ 3,94, razoavelmente abaixo do nível de R$ 3,99 de meados da semana passada, mas o DI de janeiro de 2021 subiu de 6,97% na terça-feira, 23/4, para 7,16% hoje (terça-feira, 30/4).

Outro fato apontado para dar sustentação à ideia de que novos cortes da Selic este ano ficaram mais difíceis (não impossíveis) é o que foi interpretado por alguns como um possível sinal de incômodo do BC com um dólar acima de R$ 4.

Trata-se da declaração recente do diretor de Política Monetária do BC, Bruno Serra Fernandes, de que não tem “preconceito” em relação à intervenção no câmbio. Como a fala foi feita na quinta-feira passada, um dia depois do pico recente do dólar na quarta (24/4), quando se aproximou de R$ 4, uma coisa foi ligada à outra na cabeça de alguns observadores – daí o alegado “incômodo” do BC com o dólar acima de R$ 4, o que talvez seja ir um pouco longe demais na interpretação.

De qualquer forma, os juros de mercado parecem ter encontrado um piso de um ou dois meses para cá, e a animação com novas quedas da Selic diminuiu. Diante da fraqueza persistente da economia, não é uma boa notícia.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 30/4/19, terça-feira.

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