Por que popularidade de Bolsonaro não caiu?

Há sinais de predominância do campo político do centro para a direita no eleitorado e no sistema política brasileiro hoje. Com os erros de Bolsonaro, abre-se um flanco à centrodireita e a um projeto "socioliberal". Mas ainda falta um estadista para capitalizar a oportunidade.

Fernando Dantas

15 de dezembro de 2020 | 18h21

Pesquisas recentes da Datafolha e XP/Ipespe revelam um resultado até certo ponto surpreendente para a intelligentsia do País. Bolsonaro está mantendo o ganho de popularidade que teve em meados deste ano.

O auxílio emergencial foi reduzido à metade já a partir de setembro. Se a alta do prestígio do presidente, que se deu principalmente entre os mais pobres, foi totalmente ligada ao boom de consumo popular propiciado pelo polpudo programa lançado para se contrapor aos efeitos da pandemia na renda familiar, a redução pela metade do benefício já devia ter feito algum efeito, três meses após ocorrer.

Vai ver o previsto colapso da popularidade presidencial só vai acontecer no primeiro trimestre, quando de fato o auxílio emergencial for totalmente interrompido, e as famílias pobres se vejam às voltas com um mercado de trabalho ainda muito destroçado pelos efeitos da pandemia.

Porém, para os adversários do presidente, é bom colocar as barbas de molho. Primeiro porque não se sabe com certeza como a economia e o mercado de trabalho vão reagir daqui para a frente, embora muitos analistas prevejam desaceleração da atividade.

Mesmo que a economia ande devagar, será que a sensação no primeiro trimestre será de crise e penúria ou de que as coisas estão gradativamente retornando ao normal? Como uma ou outra leitura se traduzirão em termos do sentimento da população, especialmente a mais pobre, em relação a Bolsonaro?

A resposta a essas perguntas não é nada óbvia. Há um certo vício das camadas mais ilustradas da sociedade de interpretar o Brasil a partir dos seus próprio valores e visão de mundo.

Nessa perspectiva, o presidente já deveria estar à beira do impeachment, ou talvez até da prisão.

É um pouco repetitivo ficar aqui recapitulando tudo em Bolsonaro que causa horror e repulsa, justificadamente, aos bens pensantes: a defesa da ditadura e da tortura, a hostilidade a minorias, o escândalo do filho e a tentativa do pai de encobri-lo usando órgãos de Estado, as ligações com milícias, a promoção do uso de armas pela população civil, o descaso e quase incentivo à destruição do meio ambiente, o negacionismo e a gestão desastrada da pandemia, a promoção anticientífica da cloroquina, as dificuldades criadas para a vacinação etc.

Sendo tudo isso verdadeiro, um cidadão pobre só pode estar satisfeito com o governo Bolsonaro porque está sendo “comprado” com o auxílio emergencial.

Mas será mesmo que essa é toda a explicação? A estabilidade da popularidade presidencial nos últimos meses não prova que há outras causas relevantes, mas ao menos torna pertinente a indagação.

Algo que se sabe, como vem martelando o cientista político Jairo Nicolau, do CPDOC/FGV, é que – e este é o título do seu último livro – “o Brasil dobrou à direita”.

Com toda a sua tosca truculência, Bolsonaro ainda pode representar para muitos brasileiros, especialmente os mais humildes e próximos da luta pela sobrevivência, e mais distantes das pautas modernas de costumes, um conjunto de valores de direita como família, segurança, religião etc.

Entretanto, além de ser um extremista e fazer questão de mostrar que é, Bolsonaro comete erros primários, como o apontado por Nicolau em recente entrevista à revista Conjuntura Econômica: ao abandonar o PSL e não conseguir formar uma legenda partidária própria, o presidente perdeu a oportunidade de transformar a sua grande vitória eleitoral em 2018 em uma força organizada da política brasileira.

Essa mistura de radicalismo, irracionalidade e propensão a desperdiçar oportunidades fragiliza o bolsonarismo, e abre flancos para seus adversários em 2022.

Mas o que Nicolau também nota na entrevista é que quem pode melhor se aproveitar dos erros de Bolsonaro não é a esquerda, mas sim o que chama de “quarteto de centrodireita”, MDB, PSDB, PSD e DEM. Ele observa que as dificuldades da esquerda no segundo turno das eleições municipais em cidades importantes como São Paulo e Porto Alegre denotam que vai ser difícil derrotar Bolsonaro em 2022 sem a centrodireita.

Não é nada certo, é verdade, que essas forças de centro, com a dispersão e conflitos entre partidos e potenciais candidatos, se organizem de tal forma a serem competitivas na próxima eleição presidencial.

Olhando à frente, a abordagem convencional vê a travessia caótica de mais dois anos de governo Bolsonaro, com risco de que sejam mais seis. E, ao fundo, o risco sempre presente de volta ao populismo de esquerda.

Por outro lado, o País parece estar vivendo um momento em que as forças do centro para a direita predominam no eleitorado e no sistema político.

Essa configuração, por sua vez, é congruente com políticas sociais e econômicas “socioliberais”.

Trata-se da combinação do liberalismo moderado na economia (que prevaleceu de 1994 a 2005, e a partir de 2015) com uma agenda não populista de avanço social – esta última necessariamente presente em qualquer ponto do eixo ideológico num país em que há imensa desigualdade “na partida” e a maioria dos eleitores é pobre.

É como se houvesse, apesar das nuvens de tempestade no horizonte econômico-político, uma oportunidade latente, nas preferências manifestas do eleitorado, de encontrar um caminho virtuoso. O que talvez falte é um estadista para transformar essa possibilidade numa direção real para a sociedade brasileira.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/12/2020, terça-feira.