Por que preocupa a inflação nos EUA

“Não estava no cenário de ninguém há seis meses que esses choques iriam bater tão fortemente nos núcleos ”, diz o economista Samuel Pessoa.

Fernando Dantas

19 de julho de 2021 | 12h18

Que a inflação americana, que vem repetindo surpresas altistas,  preocupa já é bem sabido. Debate-se se as altas do índice cheio e dos núcleos, em diversos tipos de leitura, é transitória ou não (a coluna de ontem do meu colega Fábio Alves discutiu esse ponto), e um certo otimismo do Fed quanto à questão arrisca a se tornar contraproducente.

Não obstante, como observa Fernando Rocha, economista-chefe da gestora JGP, no Rio, a rentabilidade do bônus de dez anos do Tesouro americano permanece em torno de 1,3%. Um nível bastante baixo, que dá a impressão de que “o mercado não comprou muito a ideia de que a inflação vai ficar alta e isso pode durar um pouco”.

Na visão do analista, se o mercado tivesse essa visão, “seria difícil manter o sangue frio”. Assim, a rentabilidade dos treasuries de 10 anos deveria subir.

Ele aponta que também pode haver fatores técnicos para o título de dez anos render tão pouco – ligado à oferta de papéis pelo Tesouro ou a posições majoritárias do mercado – mas, ainda assim, considera difícil de entender a calmaria diante dos números da inflação.

Samuel Pessoa, chefe da pesquisa econômica do Julius Bär Family Office e pesquisador do Ibre-FGV, também está bastante preocupado com a inflação norte-americana.

Ele nota que um dos problemas atuais é aferir bem o que de fato existe em termos de pressões inflacionárias mais sérias.

A alta recente da inflação é efetivamente o produto de diversos choques: porcos na China, pressão no mercado de bens em função da pandemia, desorganização pela pandemia de cadeias de oferta de bens e serviços, alta de commodities etc.

O problema, prossegue Pessoa, é que esses choques podem se revelar mais profundos e extensos no tempo do que se previa, e, quando forem revertidos, é possível que a inflação, mesmo recuando, não volte ao nível pré-pandemia. E aí, com a economia americana em pleno emprego e juros ainda baixos, um processo de reinflação pode surgir já saindo de um nível mais alto.

“Esse é o drama que o Fed vive hoje”, diz o economista.

Outra dificuldade para se apurar melhor o que está efetivamente acontecendo com a inflação americana é a base de comparação  muito baixa em meados do ano passado, quando os efeitos iniciais da pandemia foram deflacionários.

Para contornar esse efeito, seguindo uma dica de um relatório do Goldman Sachs, Pessoa começou a acompanhar a inflação norte-americana e seus componentes e núcleos numa ótica da média aritmética dos índices mensais dos últimos seis meses, anualizada.

Nesse critério, a inflação ao consumidor (CPI) cheia atingiu 7,44% em junho de 2021. O núcleo do CPI (exclusão de alimentação e energia) ficou em 5,96%. O chamado núcleo por médias aparadas bateu em 3,59%. Em todos esses casos, os números de junho de 2021 estão muito acima de qualquer coisa que se viu desde o mesmo mês de 2020 (e por muito tempo antes, com certeza).

O único núcleo que, nessa leitura, ainda que esteja alto, já trafegou em nível parecido recentemente é o da mediana do CPI. Nesse caso, atingiu-se 2,44% em junho/2021, nível parecido com o que prevaleceu entre junho e agosto de 2020.

Já quando se toma a média móvel de três meses com ajuste sazonal e anualizada, os três núcleos estavam em junho de 2021 acima de qualquer momento desde junho de 2020. Em junho deste ano, o núcleo por exclusão registrou 5,56%; o de médias aparadas, 5,02%; e o da mediana do CPI, 3%.

“Não estava no cenário de ninguém há seis meses que esses choques iram bater tão fortemente nos núcleos”, inquieta-se Pessoa.

Ele acrescenta um dado curioso e preocupante. Quando se olha para o dado da média aritmética dos últimos seis meses, anualizada, a trajetória da inflação norte-americana guarda uma incômoda semelhança com a brasileira, um país com uma história inflacionária bem mais acidentada.

Assim, nessa leitura, a inflação norte-americana subiu de -0,6% em junho de 2020 para 7,44% em junho de 2020. Já a brasileira elevou-se 0,2% para 7,68% no mesmo período.

Rocha, da JGP, pensa que existem, sim, fatores temporários no atual surto inflacionário norte-americano, mas ressalva que “a inflação é também uma questão de percepção, e, se as pessoas acreditarem que vai ter inflação, começa a haver um problema de retroalimentação”.

Para ele, ainda há tempo para o Fed reagir, mas se o BC norte-americano errar o timing e a mão, o problema pode ficar mais sério.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/7/2021, sexta-feira.