Por que sobe o desemprego?

Economistas debatem se pessoas que voltaram a procurar emprego podem ser um fator relevante no aumento do desemprego.

Fernando Dantas

25 de agosto de 2015 | 00h27

A taxa de desemprego de julho da PME, que cobre as seis principais regiões metropolitanas, surpreendeu fortemente para cima, ao atingir 7,5%, ficando muito acima da mediana de 7% das expectativas colhidas pela AE-Projeções. O resultado também está acima da previsão máxima de 7,3%.

O economista-chefe José Márcio Camargo, da gestora Opus, porém, diz que o desemprego de julho não representa uma surpresa tão grande se for levado em conta que há uma alta ininterrupta, desde o início do ano, da diferença entre o desemprego da PME de um determinado mês de 2015 e do mesmo mês de 2014.

Essa diferença foi de 0,5 ponto porcentual (pp) em janeiro; de 0,73 pp em fevereiro; de 1,13 pp em março; de 1,53 pp em abril; de 1,79 pp em maio; de 2,09 pp em junho; e de 2,6 pp em julho.

Camargo considera possível que o desemprego chegue a 8,5% em dezembro, o que levaria aquela diferença para quatro pontos porcentuais.

Se é certo que a recessão está fechando postos de trabalho a um ritmo não visto em muito tempo, há, por outro lado, visões diferentes sobre a oferta de trabalho, que têm implicações distintas sobre a política monetária e as perspectivas da economia.

O economista da Opus considera que a tendência de piora do desemprego vem fundamentalmente da perda de postos de trabalho, e não está tendo um impacto significativo da volta de pessoas à força de trabalho. Outros analistas veem este segundo ponto como um fator complementar relevante. A ideia é que a perda de empregos e de renda no seio da família pode levar alguns dos seus membros que estavam voluntariamente fora do mercado de trabalho a voltar a procurar uma ocupação. Assim, com mais gente procurando emprego numa economia em contração, a taxa de desemprego ganha um impulso extra.

Camargo, porém, tem uma visão diferente. Para ele, o normal é que a oferta de trabalho aumente quando a economia está mais forte, e caia quando está mais fraca. A razão é que há um “custo” de trabalhar – tempo gasto no transporte, a redução do tempo para outros afazeres, etc. – que se contrapõe ao benefício. Quando o benefício cai, porque a economia está desaquecida e as perspectivas de renda do trabalho pioram, haveria uma tendência a se buscar menos o emprego.

Já o economista Rodrigo Leandro de Moura, do Ibre/FGV, acha que a corrosão salarial e o fato de pessoas do núcleo familiar estarem perdendo emprego podem estar levando ao aumento da população economicamente ativa (PEA). Ele nota que 456 mil pessoas entraram na força de trabalho da PME em julho, mais do que o ganho de 200 a 300 mil dos três meses anteriores.

Mais significativo para Moura, porém, é o fato de que, em contraste com os 456 mil que entraram na PEA em julho, a queda da população ocupada (PO) foi de 206 mil. Assim, aparentemente há muito mais gente procurando emprego do que sendo demitida. Ele observa ainda que 90% do acréscimo de pessoas em busca de trabalho em julho está na faixa de 50 anos ou mais.

Camargo diz que aquela diferença poderia ser explicada também por oscilações de curto prazo da população em idade ativa (PIA), que de fato cresceu 0,3% em julho, um ritmo maior do que o habitual. Para ele, o mais importante é que a taxa de participação (PEA/PIB) está aproximadamente estável desde o início do ano passado, oscilando em torno de 56%.

O economista da Opus lembra que há implicações fortes nesta discussão. Se de fato o desemprego está sendo “turbinado” pela volta de pessoas ao mercado de trabalho, seu crescimento será mais rápido, e a política monetária para controlar a inflação pode ser menos rigorosa. No caso de a alta da desocupação ser apenas pela perda de postos de trabalho, as implicações são opostas. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 20/8/15, quinta-feira.

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