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Por que tão impopular?

A combinação de dois fatores, com pesos muito difíceis de medir agora, provavelmente vai definir a trajetória da (im)popularidade do presidente Michel Temer até as eleições de 2018.

Fernando Dantas

29 Setembro 2017 | 22h09

A arrasadora pesquisa de popularidade presidencial CNI/Ibope de setembro deve ser entendida no contexto da combinação entre dois fatores, mas o difícil é determinar o peso relativo de cada um (e mesmo se um deles existe de fato, como se verá em seguida).

O primeiro fator é o estrago que os escândalos envolvendo o presidente e seu grupo político estão provocando na popularidade de Michel Temer e do seu governo. O segundo, ainda a se confirmar, é a defasagem de tempo entre a melhora dos indicadores econômicos e a melhora do humor da população em relação ao governo

A pesquisa CNI/Ibope mostra que, sob qualquer critério, Temer é o campeão de impopularidade desde a redemocratização, superando Dilma, Collor e Sarney em seus piores momentos. Além disso, hoje quase 60% dos brasileiros consideram que o atual presidente faz um governo pior do que o da sua antecessora.

Que a corrupção está afetando a imagem de Temer parece bastante provável quando o Ibope mostra quais são as notícias associadas ao governo mais lembradas pela população: 23% sobre corrupção em geral, 11% sobre Lava-Jato e 7% para a apreensão em Salvador dos infames R$ 51 milhões em espécie atribuídos a Geddel Vieira Lima.

Das dez categorias de notícias mais lembradas, apenas três são econômicas: sobre desemprego, reforma trabalhista e reforma previdenciária, com 2% cada uma. Nota-se não só que, provavelmente, os três tipos subtraem popularidade do presidente, mas também que, comparados com o assunto corrupção, estão chamando bem menos atenção.

É aqui que entra o segundo fator: até que ponto a ínfima popularidade de Temer reflete a defasagem entre a melhora da economia e do humor nacional?

Na pesquisa CNI/Ibope, observa-se que, em diversas áreas nas quais concretamente já houve melhoras na economia, as opiniões da população continuam a piorar.

Assim, o número de brasileiros que desaprova o governo Temer em termos de taxa de juros subiu de 76% em junho de 2016 para 87% em setembro de 2017, mesmo com a queda da Selic de 14,25% para 8,25% neste período. Aliás, a desaprovação à política de juros foi piorando em todas as cinco pesquisas que se sucederam à de junho de 2016, e passou de 84% em julho de 2017 para 87% em setembro.

Fenômeno muito parecido ocorre com a inflação. A desaprovação à forma como o governo lida com esse tema saltou de 64% em junho de 2016 para 77% em julho de 2017 e 81% em setembro. O detalhe é que o IPCA acumulado em 12 meses caiu de 8,84% para 2,46% ao longo desse período, e o item “alimentação e bebidas” do índice saiu de 12,81% para deflação de 2,02%.

No caso do desemprego, os sinais de alguma melhora são mais recentes, mas, de qualquer forma, a trajetória de desaprovação ao governo Temer em relação ao assunto segue a mesma tendência dos juros e da inflação.

Também em relação aos temas mencionados acima pode haver duas leituras para os descasamentos. A primeira é que a repulsa que a corrupção traz é tamanha que predispõe a população a ficar contra o governo, mesmo quando se pede que analise temas em que concretamente aconteceram melhoras.

A segunda hipótese é que há muita inércia nas percepções populares sobre temas econômicos. Assim, o bom humor se mantém bastante tempo depois de encerrado um boom, e o mau humor igualmente perdura bem além da recessão em si. Porém, se a economia continuar melhorando – e a crer nessa visão –, é de se esperar que isto venha a se refletir positivamente na popularidade de Temer antes da eleição.

Novamente, é bem possível que os dois fatores estejam se combinando. É o peso de cada um, entretanto, que vai determinar até que ponto Temer pode se recuperar e chegar às eleições de 2018 sem ser um veneno para qualquer candidato a ele associado. Quanto maior for o peso da defasagem entre economia e humor, descrita acima (supondo que este fator efetivamente esteja se manifestando agora), maiores as chances de alguma recuperação da popularidade presidencial. Quanto maior for o fator de repulsa à corrupção (supondo-se, como parece quase certo, que Temer e seu grupo político não vão parecer mais íntegros para a população até a eleição), pior a perspectiva para o atual presidente. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 29/9/17, sexta-feira.