Portas abertas no BC

Comunicação cautelosa leva a interpretações de redução do ritmo de alta da Selic, mas também à possibilidade de ciclo de alta maior.

Fernando Dantas

30 de março de 2015 | 17h09

O Banco Central (BC) manteve portas abertas para diferentes linhas de ação por meio do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de março e da entrevista do diretor de Política Econômica, Luiz Awazu Pereira da Silva, em 26/3/15, quinta-feira. Como notou Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX, no Rio, o BC retirou a expressão “vigilante” do RTI, mas ela consta do primeiro slide da apresentação de Awazu, intitulado “principal mensagem”. Contudo o “vigilante” já não está acompanhado do advérbio “especialmente”.

Para Solange, a vigilância sem o qualificativo de especial pode significar que, mesmo que o BC pare de subir a Selic em alguma das próximas reuniões, não há espaço para que a taxa básica comece a cair rapidamente.

Segundo a economista, um cenário de parada e manutenção também parece compatível com as projeções ainda otimistas do BC (quando comparadas às previsões mais recentes dos principais bancos e consultorias) de PIB e inflação em 2015 – de respectivamente -0,5% e 7,9% no cenário de referência. São números que podem provocar efeitos contrários na conduta do Copom quando este se ‘surpreender’ com resultados piores.  Uma economia mais fraca pode levar o Copom a amenizar a política monetária, mas a inflação pior, com riscos de reforçar a inércia para 2016, inclina a autoridade monetária na direção inversa.

Solange considera que uma das principais razões para o BC manter um cardápio de diferentes alternativas é a alta volatilidade do câmbio. Embora uma das maiores ênfases do RTI de março seja na suavidade do pass-through cambial na atual conjuntura, movimentos muito rápidos e intensos de desvalorização naturalmente podem complicar o plano de voo do Copom.

A economista nota que o câmbio muito velozmente foi de menos de R$ 3 no início de março para praticamente R$ 3,3, voltou para próximo de R$ 3,1 e agora gravita próximo a R$ 3,2.

“Acho que o BC está deixando em aberto as alternativas de 0,25 ou 0,50 (ponto porcentual de aumento da Selic na reunião de 28 e 29 de abril) por causa da instabilidade do câmbio”, diz a economista. A ARX mantém as previsões de mais duas altas da Selic de 0,5 ponto porcentual na reunião de abril e de 0,25 na de junho, mas Solange acrescenta que “se o câmbio estabilizar próximo de R$ 3,1, podem ser duas de 0,25”.

O economista Roberto Padovani, do Banco Votorantim, manteve (em relatório divulgado hoje sobre o RTI de março) a projeção de mais uma alta de 0,5 abril e manutenção da Selic em 13,25% em junho. Ele ressalta que, como no último discurso de Alexandre Tombini, presidente do BC, o RTI atenuou riscos de inflação para 2016, em função do aperto fiscal, do realinhamento dos preços administrados em 2015, do relaxamento do mercado de trabalho e do menor repasse cambial.

Ainda assim, Padovani diz que a projeção do Votorantim contém um viés de ciclo de aperto maior, já que, na sua visão, o BC deliberadamente não está sinalizando que está à beira de parar as altas da Selic. Isto, na opinião do economista, deriva do fato de que “os riscos para inflação seguem elevados e as expectativas se mantêm desancoradas”.

Já o economista Fernando Montero, da corretora Tullett Prebon Brasil, conclui seu relatório sobre o RTI de março reafirmando a previsão de desaceleração do ritmo de alta para 0,25 ponto porcentual em abril, mas alertando que “as projeções oficiais acima das metas, de um BC que crava os 4,5% em 2016, fazem pensar entretanto em um ciclo mais longo de ajustes”. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 26/3/2015, quinta-feira.

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