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Pra onde foi o risco político?

Mercado se comporta como se não houvesse o risco de o atual governo desandar e/ou Temer cair. Há, de fato, algumas razões para sustentar certo otimismo (o que não descarta a possibilidade de o pior, em termos do mercado, acontecer).

Fernando Dantas

17 Junho 2016 | 18h26

Na semana em que o presidente em exercício, Michel Temer, teve o seu nome envolvido na teia de denúncias da Lava-Jato, a bolsa operava no final desta manhã em ligeira alta ante o fechamento da sexta-feira passada (10/6) e o dólar ligeiramente acima do nível do mesmo dia, mas ainda abaixo R$ 3,45. Durante as negociações da semana, não se pode dizer que o mercado tenha ignorado a notícia sobre Temer, mas certamente a reação foi muito menor do que faria supor a importância vital que os próprios investidores e analistas atribuem a que o novo governo seja bem-sucedido e consiga aprovar no Congresso sua agenda fiscal.

Subitamente, parece que o risco político encolheu-se para o fundo do palco, e o mercado passou a tolerar bastante bem fatos que provocariam choro e ranger de dentes no governo anterior: um déficit fiscal imenso no ano, com perspectivas de se replicar em boa medida em 2017, reforçado pelos aumentos acertados com o funcionalismo, em geral, e o Judiciário, em particular, e tudo isso tendo como contrapartida duas iniciativas – o limite do gasto e a reforma da Previdência – que têm todos os ingredientes que nas últimas décadas provocaram resistência e rejeição ferozes por parte dos parlamentares.

Denúncias constantes envolvendo e derrubando membros do ministério de Temer e alcançando o próprio presidente naturalmente não melhoram nada o quadro descrito acima.

Uma série de fatores pode explicar por que o mercado aparentemente está concedendo a Temer a “mãe de todos os benefícios da dúvida”.

O primeiro deles é que o presidente em exercício teve a sorte de entrar no governo no momento em que há sinais de uma virada cíclica na economia, com o ajuste externo concluído, o combate à inflação relativamente encaminhado (apesar dos recentes ruídos) e a confiança em tímida recuperação. Ninguém acha que o PIB está prestes a arrancar triunfalmente, e é certo que o desemprego ainda vai aumentar, mas a perspectiva de que a queda livre da atividade seja finalmente estancada é alentadora e cria uma “torcida” dos agentes econômicos e políticos para que o processo continue sem interrupções, o que equivale ao impeachment ser aprovado e Temer manter a governabilidade.

O presidente em exercício reforçou essa onda de boa vontade ao chamar uma equipe econômica de grande competência, que inspira respeito não só no mercado financeiro, mas também nos empresários e nos investidores do setor produtivo.

Os sinais de um processo cada vez mais delongado e suave de elevação dos juros americanos é um fator positivo no cenário internacional, e também ajuda a equipe econômica de Temer.

Na área especificamente política, Ricardo Ribeiro, analista político da consultoria MCM, observa que a Lava-Jato está expandindo enormemente os seus tentáculos, que podem atingir centenas de deputados e dezenas de senadores. E isto de certa forma introduz no processo não só uma questão de tempo – o processamento pelas instituições de todas as denúncias vai ser arrastado, espichando a janela de Temer para ir tocando seu governo –, mas também uma tendência de os políticos se protegerem coletivamente.

“Pode haver uma certa proteção, a não ser que haja provas muito contundentes como as do (Eduardo) Cunha, com movimentação em contas no exterior que indiquem muito fortemente a propina”, ele diz. Enquanto isso, prevê, “os políticos vão tocar a vida como se nada estivesse acontecendo, com o discurso padrão de que utilizaram recursos declarados e aprovados pela Justiça Eleitoral”. Ele considera que a denúncia relativa a Temer “é um constrangimento complicado, mas não é mortal”.

Ribeiro também acha que os escândalos em série reforçam a posição da equipe econômica dentro do governo, cuja agenda de restauração da normalidade econômica se torna a única via para os políticos se legitimarem e tentarem acalmar os ânimos e desviar a atenção da Lava-Jato. De certa forma, contrabalançando o fato de que o ajuste fiscal atinge interesses especiais defendidos por muitos parlamentares, os políticos também têm interesse em pegar carona no sucesso da única agenda viável do governo, o que aumenta as chances de aprovação no Congresso.

“Enquanto o governo se sustentar, a agenda econômica vai ser tocada, e isso vale tanto para o Executivo quanto para o Congresso”, diz Ribeiro.

Por outro lado, o analista político ressalva que, se um “torpedão” de fato atingir Temer e o presidente em exercício cair, entra-se num cenário de provável eleição presidencial antecipada, e tudo pode acontecer.

“Se eu fosse investidor, estaria um pouco mais cauteloso. A queda de Temer é um risco imensurável, mas que não dá para descartar. É o chamado ‘evento de cauda’, pouco provável, mas que é desastroso se acontecer”, conclui o analista. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 17/6/16, sexta-feira.