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Prêmio Nobel “criativo e elegante”

Fernando Dantas

16 de outubro de 2013 | 13h20

A “solução” encontrada na premiação do Nobel de Economia de 2013 foi “sofisticada, criativa e elegante”, para Aloisio Araújo, da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas no Rio (EPGE/FGV), um dos economistas brasileiros de maior destaque acadêmico. Atualmente professor visitante em Harvard, Araújo é membro da exclusiva Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos.

A escolha tripla deste ano chamou a atenção de muitos analistas por premiar simultaneamente Eugene Fama, associado à ideia dos “mercados eficientes”, e Robert Shiller, um dos mais importantes analistas da “exuberância irracional” (título de um dos seus livros) dos mercados.

Fama, na verdade, foi muito criticado na esteira da grande crise global, como alguém que teria ajudado a solidificar a ideia liberal de que as autoridades econômicas não devem intervir e devem deixar os mercados buscarem o seu próprio equilíbrio.

Araújo, no entanto, acha que o Riksbank, o banco central sueco (responsável pelo Nobel de Economia), acertou na escolha, porque “reuniu ângulos diferentes da questão do preço dos ativos, que eu não vejo como necessariamente contraditórios”.

O economista acrescenta ainda que o terceiro nome premiado, de Lars Peter Hansen, tem um trabalho altamente técnico, e poderia até ter ganho por suas contribuições à macroeconomia. No caso da análise do preço dos ativos, que foi o tema central do Nobel deste ano, Hansen, segundo Araújo, contribuiu com “estudos sofisticadíssimos” sobre a taxa de juros pela qual se desconta a renda futura dos ativos. “É uma contribuição mais metodológica”, ele comenta.

Já sobre o aparente contraste entre os achados de Fama e Shiller, Araújo argumenta que é preciso discernir o que exatamente está implicado no trabalho de cada um. No caso de Fama, ele continua, a questão da eficiência é, na verdade, a constatação de que o mercado processa de forma muitíssimo rápida as informações disponíveis

“Quando há uma informação nova, ela é rapidamente processada, e, a partir daí, não há previsibilidade do preço dos ativos no curto prazo, que acabam tendo um ‘passeio aleatório’”, continua o economista. O passeio aleatório, como o próprio nome diz, é uma trajetória totalmente indeterminada, tanto para cima como para baixo.

Segundo Araújo, esta é uma ideia “muito útil” no curto prazo, e ajudou inclusive a mostrar que é meio inútil o esforço de gestores de fundos de ações hiperativos, que tentam “bater os índices”.

O economista acrescenta que o modelo de Black & Scholes de precificação de opções (que deu o Nobel a Myron Scholes, Fischer Black já havia morrido) tem débitos com a ideia do passeio aleatório. “São teorias úteis, mas estas fórmulas falham quando há um evento abrupto de ruptura de bolhas”, ele acrescenta.

Já Shiller, ligado à finança comportamental, mostrou que bolhas podem ser formadas a partir do comportamento de agentes excessivamente otimistas. Araújo explica que, nestas situações, o agente racional não consegue “arbitrar” o desvio do equilíbrio de mercado que percebe, porque há limites para as vendas a descoberto. “O investidor que não se deixou levar não tem aquele ativo, e esbarra, portanto, nos limites às vendas a descoberto – assim, os preços continuam a subir, para além dos fundamentos”. Mas Araújo acrescenta que Shiller também diz que os preços tendem a voltar aos fundamentos, ainda que haja bolhas no meio do caminho. (Fernando Dantas)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi postada originalmente na AE-News/Broadcast

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