Presidencialismo em transe

Carlos Melo, cientista político do Insper, analisa os seis núcleos do governo Bolsonaro e seus problemas.

Fernando Dantas

19 de setembro de 2019 | 10h41

O cientista político Carlos Melo, do Insper, mapeia o governo Bolsonaro dividindo-o em seis núcleos. Mesmo naquele tido como o melhor e mais importante por muitos participantes do mercado, o núcleo econômico – que Melo denomina de núcleo de “ultraliberalismo econômico” –, o pesquisador vê sérios problemas.

Ele nota que a equipe econômica é uma mescla de pessoas com grande experiência de atuação no setor público com outras que praticamente não tinham nenhuma, o que acaba criando uma defasagem entre expectativas e promessas e o que efetivamente está sendo realizado. Um exemplo são as privatizações, que Paulo Guedes queria que fossem maciças e velozes, mas que estão com dificuldade de decolar.

Adicionalmente, a postura superliberal de Guedes cria algum “conflito cultural” com o empresariado nacional em termos de temas como proteção e subsídios.

O “núcleo Lava-Jato” do governo, centrado no ministro da Justiça, Sergio Moro, é o que Melo chama de “dínamo da popularidade”. Na última pesquisa Datafolha sobre Bolsonaro e seu governo, de final de agosto, constatou-se que a popularidade de Moro, acima de 50%, é hoje bem superior à de seu chefe, o presidente Bolsonaro, que teve 29% de “ótimos” e “bons”.

É desse “núcleo Lava-Jato” que provêm algumas das maiores tensões internas do governo Bolsonaro, que se pretende moralizador, mas que está em conflito com o chamado “Estado profundo” – uma tradução da expressão inglesa “deep state”. O Estado profundo são corporações ciosas do seu poder, e não imunes ao corporativismo, como a Polícia Federal, a Receita Federal e o Ministério Público.

No afã de proteger o “flanco familiar”, Bolsonaro entrou em choque com esses órgãos que, como lembra Melo, são “os profissionais”, enquanto Bolsonaro e sua família são “os amadores”, quando se trata de incriminar adversários.

O único núcleo que é visto de forma quase inteiramente positiva pelo pesquisador do Insper é o “operacionalmente qualificado”, no qual ele inclui saúde, infraestrutura e agricultura, áreas comandadas por ministros pragmáticos e eficientes. Mesmo aqui, entretanto, as ações são dificultadas pelas disfunções do governo Bolsonaro em outros setores.

O “núcleo militar”, para Melo, foi visto inicialmente como aquele que daria moderação política e racionalidade técnica ao governo Bolsonaro. Mas não funcionou assim. A briga pública dos filhos de Bolsonaro contra o vice-presidente Hamilton Mourão e a demissão do general Santos Cruz da Secretaria Geral da Presidência da República foram alguns dos fatos que inverteram a ordem dos fatores inicialmente imaginada: os militares não tutelam Bolsonaro, mas este sim está fazendo com que as altas patentes – pelo menos até agora – se adaptem ao seu projeto de poder. Hoje, na verdade, o núcleo militar está mais recolhido.

Talvez o pior núcleo na visão do cientista político seja o “ideológico”, que sob a batuta de pessoas formalmente de fora do governo, como os filhos do presidente e o guru Olavo de Carvalho, estabeleceu sua influência (incluindo nomeações de ministros) em áreas como Educação, Relações Exteriores e Meio Ambiente.

Na visão de Melo, é um núcleo “não pragmático, ressentido e com aversão à cultura e à imprensa”. O problema adicional é que se trata de um grupo de pessoas com conexões internacionais, que já conseguiram criar conflitos políticos, sociais e comerciais sérios.

O sexto núcleo, finalmente, é o de “articulação política”, mas que se notabiliza justamente pela incapacidade de cumprir esta tarefa, e não conta nem com articuladores experientes nem autonomia.

O resultado de tantas falhas num governo balcanizado em diversos núcleos é o que Melo denomina “presidencialismo em transe”, com deslocamento de poder do Executivo para o Congresso Nacional.

A popularidade de Bolsonaro já vem sofrendo as consequências desse processo. Para além da queda dos números principais, registrada pelas pesquisas, o pesquisador do Insper chama a atenção para o fato de que o núcleo duro dos bolsonaristas era de 12% na última pesquisa do Datafolha, enquanto que o dos antibolsonaristas era de 30%. O critério são os entrevistados que avaliam bem o governo e concordam com quase tudo que o presidente fez e o grupo oposto, dos que avaliam mal e discordam de quase tudo.

Melo nota que “Bolsonaro prega para os convertidos, e os convertidos são declinantes”.

Nesse cenário, resta, na visão do cientista político, a recuperação econômica para resgatar o governo dos seus próprios erros. Como não é economista, porém, Melo não se arrisca a prever se a retomada será ou não suficiente para isso.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/9/19, segunda-feira.