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Pressão externa e interna no real

Fernando Dantas

24 de setembro de 2014 | 23h27

Fatores externos e internos se somam no momento para pressionar o real no sentido da desvalorização. No mercado internacional, a moeda americana vem ganhando fôlego, em função da recuperação assimétrica do mundo rico, em que Estados Unidos e Reino Unido largaram na frente. No cenário doméstico, a recuperação de Dilma nas pesquisas é vista pelo mercado como a causa dos movimentos mais recentes do câmbio.

“De um mês para cá, temos um dólar que ganha força no mundo, mas o que explica os últimos movimentos do câmbio no Brasil são as pesquisas eleitorais”, diz o economista-chefe de uma gestora de recursos.

Em relação ao mercado internacional, Carlos Kawall, economista-chefe do banco J. Safra, nota que William Dudley, que ocupa a importante posição de presidente do Fed (Federal Reserve, BC americano) de Nova York, disse ontem que o dólar forte pode atrapalhar a recuperação da economia americana.

O dólar sobe, segundo Kawall, porque a economia americana está recuperando terreno, sendo esperada uma revisão para quase 5% (em termos anualizados) do PIB do segundo trimestre, com expectativa de crescimento em torno de 3% no terceiro. O desemprego vem caindo, apesar de persistirem idiossincrasias no mercado de trabalho americano, como a queda da taxa de participação.

O economista do J. Safra nota que a mediana das projeções dos participantes do FOMC (comitê de política monetária do Fed) sobre o caminho futuro dos Fed Funds, taxa básica americana, situa-se acima da trajetória embutida nas taxas de juros do mercado.

Este é um debate que vem sendo travado de forma minuciosa nos Estados Unidos. Relatório recente do Goldman Sachs sugere que a interpretação das projeções individuais dos membros do FOMC sobre a trajetória dos Fed Funds deva se focar na parte inferior do conjunto de previsões, onde os analistas da instituição julgam que estejam a chair do Fed, Janet Yellen, e outros membros do núcleo decisório em torno dela. Neste caso, o que estaria precificado, segundo o Goldman Sachs, seria uma série de aumentos de 0,25 ponto porcentual começando em junho de 2015 e estendendo-se até 2017 – o que estaria próximo da trajetória projetada pelo mercado, pelo menos no curto prazo.

De qualquer forma, a discussão nos Estados Unidos contrasta fortemente com a zona do euro, em que a economia continua, segundo Kawall, “flertando com o terreno deflacionário”, levando o presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, a sinalizar que pode ampliar as medidas não convencionais de estímulo monetário no bloco, como a compra títulos. O Japão também pode acionar mais estímulos, diante da dificuldade de fazer a inflação aumentar até 2%. Essas novas ondas de relaxamento monetário dos parceiros dos Estados Unidos no G-7 contribuem para enfraquecer suas respectivas moedas ante o dólar.

Na China, apesar de um dado positivo hoje da pesquisa junto a empresas industriais do HSBC, Kawall acha que o conjunto dos indicadores recentes ainda indica desaceleração, o que vem afetando as commodities (a queda do preço do minério de ferro é um bom exemplo). Isso impacta negativamente as moedas de grandes exportadores de matérias-primas, como o Brasil.

“Em termos globais, o cenário de alta do dólar e queda das commodities é saudável, porque estimula as economias centrais que estão em maior dificuldade e melhora a renda disponível e o potencial de consumo, além de reduzir qualquer risco de inflação”, diz o economista do J. Safra. Ele nota ainda que, apesar da queda desde o início do ano do juro do título de dez anos do Tesouro americano (hoje cotado a 2,55%), ele está muito mais alto que o equivalente alemão, em torno de 1%.

Os efeitos a curto prazo de um dólar mais alto no Brasil, porém, preocupam pelos seus possíveis desdobramentos inflacionários.

Um analista nota que, apesar da pressão recente, o BC manteve o ritmo do seu programa de swaps: “Eles não estão aumentando o nível de atuação, não estão defendendo uma cotação, o que eu considero certo”, diz.

(O BC aumentou o nível de intervenção na quarta-feira, 24/9, no dia seguinte à publicação desta coluna)

Há a percepção, entretanto, de que a desvalorização pode se tornar mais intensa se Dilma recuperar uma grande margem de favoritismo nas eleições. “O mercado ainda está precificando chances de 50% a 50% para Dilma e Marina, se virar para 80% para a presidente as coisas podem piorar bastante”, acrescenta o analista. Neste caso, ele não descarta que o BC aumente o volume de intervenção.

“A visão do mercado é de que o atual modelo econômico é insustentável, mas que dá para segurar por seis meses – já por quatro anos não dá”, ele continua. O analista nota que, se o mercado ficar mais turbulento, Dilma estará de mãos atadas para anunciar mudanças na equipe e na política econômica até se encerrar o ciclo eleitoral.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 23/9/2014

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