Prevenção sabotada, mas vacina pode surpreender

Enquanto economistas, empresários e banqueiros lançam manifesto cobrando do governo ações eficazes contra a Covid-19, relatório da consultoria Eurasia mostra previsão relativamente otimista (mas não no curto prazo) para vacinação no Brasil.

Fernando Dantas

22 de março de 2021 | 19h05

A carta aberta de economistas, empresários e banqueiros, divulgada esse fim de semana, exortando as autoridades brasileiras a combaterem de forma eficaz a pandemia, alcançou boa repercussão.

Economistas de esquerda, que não foram chamados a assinar o manifesto inicialmente, declararam a sua concordância, e alguns o firmaram na sequência.

Houve até quem visse no documento uma semente, no campo dos economistas, da tal “frente ampla” da qual tanto se fala como plataforma para derrotar Jair Bolsonaro em 2022.

O documento bate na tecla que já foi soada desde o início da pandemia, e que o presidente insensatamente tende a ignorar. Sem controlar o aumento descontrolado dos casos e óbitos da Covid-19, não tem como a economia funcionar.

Como aponta a carta aberta, “esta recessão, assim como suas consequências sociais nefastas, foi causada pela pandemia e não será superada enquanto a pandemia não for controlada por uma atuação competente do governo federal”.

Está claro que, diante da virulência da segunda onda, nada mais resta do que apertar as medidas de prevenção – distanciamento social e uso maciço de máscaras adequadas, como frisado no manifesto – e acelerar a vacinação.

Quanto às medidas de prevenção, Bolsonaro, de forma insana, continua resistindo, na sua tosca incapacidade de compreender que a economia não vai voltar enquanto milhares de cadáveres se acumulam a cada dia.

A carta aberta exorta as autoridades a criarem um mecanismo de combate à pandemia em âmbito nacional, que deveria coordenar as medidas de distanciamento social no âmbito local.

Como os signatários conhecem a inclinação do presidente a sabotar as medidas de prevenção à Covid-19, escrevem que o mecanismo nacional deveria “preferencialmente” estar no Ministério da Saúde, mas, “na sua ausência, por consórcio de governadores”. Nem é preciso dizer que essa coordenação central teria que ser orientada, segundo os signatários, por uma comissão de cientistas e especialistas.

Entretanto, se no front da prevenção não há sinais de abrandamento do negacionismo do presidente, na vacinação há uma mudança de postura. O governo percebeu, ao custo de dezenas de milhares de vidas, e com a ameaça de Lula candidato em 2022, que um fracasso total em vacinar a população é suicídio político.

Em recente relatório, cujos principais resultados a colunista Sonia Racy, do Estadão, divulgou em primeira mão, a consultoria Eurasia mostra relativo otimismo em relação à vacinação no Brasil para além do curtíssimo prazo.

Segundo a Eurasia, graças à produção local (a partir do componente básico importado, diga-se) do Butantan (CoronaVac) e da Fiocruz (AstraZeneca-Oxford), a vacinação deve aumentar significativamente nos próximos dois meses. Dessa forma, a Eurasia prevê o declínio de hospitalizações e mortes a partir do final de abril e início de maio.

Ainda assim, o Brasil só atingirá uma “nova normalidade”  – 75% da população acima de 65 anos vacinada duas vezes – em junho, e nas próximas quatro semanas a pandemia pode ficar ainda pior do que já está.

A previsão da consultoria é de que o Brasil vacine a maioria das pessoas com mais de 65 anos até meados de abril, e quase toda a população acima de 60 anos ou com comorbidades até o fim de maio.

Para sustentar esse otimismo, a Eurasia cita o início da produção no Butantan e na Fiocruz e as negociações do governo com a Pfizer-BioNTech, cujas vacinas poderiam começar a ser entregues em maio. Também são mencionadas negociações com outros produtores.

A consultoria monta três cenários e, no básico (nem otimista nem pessimista), o Butantan mantém seu cronograma de produção; a Fiocruz, 75% do seu; as importações da vacina AstraZeneca-Oxford fabricadas na Índia – chamadas no País de “Covishield” – são cumpridas como contratadas; mas só 50% das vacinas da “Covax Facility”, mecanismo multilateral, chegam no prazo previsto.

De cara, já há pelo menos uma frustração no cenário básico da Eurasia. Como noticiado hoje nos jornais, o Instituto Serum, da Índia, avisou ao Brasil que vai atrasar as entregas de 8 milhões de vacinas “Covishield”, por causa da atuação do governo indiano para privilegiar o próprio país, em função de pressões populares e políticas.

De qualquer forma, trata-se de um cenário de múltiplas variáveis, e naturalmente nem todas irão tão bem quanto previsto (e pode haver, por outro lado, as que superam as projeções).

Se algo próximo ao cenário base da Eurasia se materializar, a economia brasileira pode ter uma retomada sustentável no segundo semestre. E, segundo a consultoria, uma reabertura dos setores econômicos paralisados pela pandemia poderia acontecer de forma gradual já no segundo trimestre.

A própria Eurasia alerta, porém, que a variante amazônica do coronavírus e a possibilidade de surgirem outras também mais transmissíveis trazem riscos ao cenário básico, inclusive pela questão da eficácia das vacinas disponíveis contra esses vírus turbinados (mas o relatório frisa que os resultados dos primeiros estudos são favoráveis).

Isso pode ocorrer especialmente nos próximos 30 dias, pico do descontrole da pandemia no Brasil.

Tudo redunda, portanto – carta aberta dos economistas e relatório da Eurasia –, na óbvia sensatez de, além da vacinação, apertar o cerco contra o coronavírus agora de todas as formas, especialmente por meio do distanciamento social e outras medidas preventivas.

Bolsonaro, contudo, salvo enorme surpresa, deve continuar a desafiar o bom senso e a estimular o morticínio.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)