Previsão de pouca chuva até abril no SE e CO

Fernando Dantas

13 de março de 2014 | 17h22

Está havendo uma nova quebra no regime de chuvas que abastece os decisivos reservatórios da região Sudeste e Centro-Oeste. Assim, será difícil chegar ao fim do período úmido, no final de abril, com 40% ou mais de água nos reservatórios do SE e CO. A análise é do meteorologista Paulo Etchichury, diretor técnico da Somar Meteorologia e ex-pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE).

A Somar, que conta com 20 meteorologistas, presta serviços para clientes em setores como agropecuária, comércio, mercado financeiro, mídia, transportes e Defesa Civil.

“As chuvas da primeira semana de março não terão continuidade (na região dos reservatórios do SE e CO) e, do ponto de vista hidrológico, há risco de racionamento”, ele diz.

O recente aumento da previsão de 67% para 77% no nível de águas que entrarão nos reservatórios do SE e CO pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) deve-se, segundo Etchichury, ao fato de que o modelo leva em conta que o padrão de chuvas do início do mês vai se manter até o final.

A meteorologia, porém, indica que isto não vai acontecer, ele acrescenta. Para explicar o porquê, ele recua um pouco no tempo e faz uma recapitulação do que ocorreu em termos hidrológicos desde dezembro.

Na verdade, em termos da temperatura do Oceano Pacífico na costa Oeste da América Latina, que influencia o regime de chuvas no Brasil, há no momento um período neutro, isto é, sem El Niño (águas mais quentes), nem La Niña (águas mais frias).

O período neutro, ele explica, caracteriza-se por uma forte variabilidade geográfica das chuvas no Brasil – isto é, as chuvas se dispersam entre as diversas regiões do País. Do ponto de vista da agricultura, é muito positivo, e estes anos caracterizam-se por poucas quebras de safra. Já do ponto de vista energético, os anos neutros não são tão bons, porque o ideal é que as chuvas concentrem-se nas bacias que alimentam os reservatórios do Sudeste e Centro Oeste (como dos rios Paranaíba e Grande), responsáveis por 70% da geração hidroelétrica no País.

Em dezembro, nota o meteorologista, choveu bem nessa região crítica, mas, a partir de janeiro, ocorre um fenômeno atípico de aquecimento das águas do Atlântico no Sul do País, que faz com que as chuvas concentrem-se no Sul. O fenômeno prossegue, e por isso deve voltar a chover pouco no SE e CO. A falta de chuvas em março compromete parcialmente o mês de abril, porque o solo volta a secar, prejudicando a captação das represas, caso chova mais no próximo mês.

O único aspecto positivo do cenário, diz Etchichury, é que o regime neutro no Pacífico normalmente é positivo para as chuvas no Sul do Brasil, que podem vir em bom volume ao longo de todo o ano. Neste caso, apesar de responder apenas por 10% da geração, o sistema do Sul pode não atrapalhar ou até contribuir para o do Sudeste e Centro-Oeste. Mas o meteorologista deixa claro que esta contribuição pode, no máximo, mitigar o problema hidrológico.

Ele explica ainda que há grandes períodos de águas em média mais frias e mais quentes no Pacífico, chamados de “oscilação decadal do Pacífico” (ODP). De 1945 a 1975, viveu-se uma OPD fria, o que faz com que as piores séries nos modelos de simulação hidrológica no Brasil ocorram justamente naquele período. De 1975 a 2005, a ODP foi quente, e, a partir de 2005, voltou-se a uma ODP fria.

Etchichury explica que pode haver grandes oscilações do regime de chuvas nesses períodos, e basta uma boa temporada nas bacias do Sudeste ou Centro Oeste para reabastecer o sistema elétrico brasileiro. Por outro lado, as chances de que aconteçam períodos críticos com o atual aumentam numa ODP fria.

“Nesse sentido, as políticas de energia alternativa podem ganhar mais importância e o mercado deveria começar a olhar as perspectivas hidrológicas de maneira diferente”, ele conclui.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Este artigo foi publicado na AE-News/Broadcast na segunda-feira, 17/3/14.

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