Procura-se presidente para a Petrobrás

Há uma visão quase consensual de que, se o governo quiser salvar a Petrobrás, urge trocar a sua cúpula de comando. O problema, porém, é a dificuldade de encontrar um nome adequado para o imenso desafio de presidir a Petrobrás neste momento.

Fernando Dantas

17 Dezembro 2014 | 19h46

Na visão de diversos analistas, se o governo quiser salvar a Petrobrás do desastre em que a maior empresa brasileira está progressivamente se envolvendo, urge trocar a diretoria da estatal, com especial cuidado na escolha do novo presidente. Se a intenção é fazer com que o investidor na empresa, especialmente na esfera internacional, entenda que não se deve confundir a instituição com pessoas que cometeram malfeitos enquanto lá trabalhavam, é fundamental reafirmar o quanto antes este princípio. A única forma é trocar o comando o mais rapidamente possível, indicando que as pessoas passam, mas a empresa fica.

As constatações acima, um tanto quanto óbvias, estão na cabeça da maioria dos interessados no caso da Petrobrás. Assim, no mercado, já se discute intensamente qual deveria ser o perfil de um novo presidente da estatal.

Um presidente com capacidade de resgatar a Petrobrás teria de reunir necessariamente uma enorme reputação de competência em gestão e de conduta ética ilibada. “Não basta que a pessoa tenha essas características, é preciso que ela seja conhecida por essas características – tem que chegar com uma imensa credencial para provocar um impacto imediato”, diz um analista de mercado.

O profissional relata que já houve uma intensa discussão interna na sua instituição sobre quem reuniria as características para o cargo. Chegou-se a comentar que o PT teria de procurar na sua órbita de influência alguém como Pedro Parente, que foi o gestor da crise elétrica tucana.

É evidente que uma eventual nomeação para a presidência da Petrobrás não pode ter nem mesmo a mais leve nuance política, o que parece ser a razão pela qual o governo já pensa no nome de algum grande empresário, segundo relatos da imprensa. Mas nem todo representante bem sucedido do setor privado convém à Petrobrás neste momento. Qualquer vinculação com o BNDES ou com outros braços da política industrial (ou mesmo negócios com a própria Petrobrás) já traria dúvidas e questionamentos sobre conflitos de interesse desde o início. E não é fácil encontrar no Brasil um empresário de elevado perfil que não tenha uma relação intensa com o governo.

Há não muitos anos, reportagens da imprensa internacional faziam a distinção entre a Petrobrás e empresas estatais de petróleo latino-americanas como a Pemex e a PDVSA, respectivamente do México e da Venezuela.

No caso brasileiro, tratava-se de uma empresa que, apesar de estatal, tinha uma gestão profissionalizada e competente, que permitiu que se tornasse a líder no segmento de alta tecnologia da prospecção e exploração de petróleo em águas superprofundas. Já a Pemex e a PDVSA eram empresas corroídas pela interferência política, ineficientes e mais propensas à corrupção.

A experiência petista de nomear para a presidência da Petrobrás pessoas com vinculações políticas, como José Eduardo Dutra e Sérgio Gabrielli, vai se revelando um grande erro. Não se trata, obviamente, de lançar acusações sobre os dois ex-presidentes (apenas a Justiça vai determinar quem é responsável pela pletora de casos recentes de corrupção da estatal), mas apenas constatar que a lógica política contaminou de forma ampla e profunda a Petrobrás. Neste sentido, hoje a estatal brasileira tornou-se mais parecida com a Pemex e a PDVSA na visão dos investidores internacionais, o que significa um prejuízo incalculável para a imagem do Brasil.

A nomeação de Graça Foster, funcionária de carreira de boa reputação, para substituir Gabrielli, que foi saudada de início como um bem-vindo processo de despolitização, revelou-se ineficaz para estancar o estrago. Hoje a própria Graça vê-se às voltas com sérios questionamentos e discute-se abertamente a sua saída.

A tarefa de um eventual novo presidente seria justamente a de reverter de forma cabal e decisiva o lamentável processo de regressão institucional que se desenrola na Petrobrás diante dos olhos estupefatos dos brasileiros e da comunidade internacional. A tarefa, porém, apresenta dificuldades gigantescas, e não é fácil imaginar hoje um nome com capacidade de enfrentá-la.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 16/12/14, terça-feira.