Produção industrial nas brumas do passado

Produção industrial de abril mostrou o cenário que poderia ter sido, mas não foi. Está tudo muito pior agora.

Fernando Dantas

06 Junho 2018 | 00h18

A produção industrial acima da mediana das expectativas em abril foi uma melancólica mostra de um cenário que poderia ter sido mais já não é.

Recapitulando, abril foi o mês em que o dólar começou a subir de forma mais forte, mas os efeitos mais deletérios da desvalorização sobre as condições financeiras ainda estavam por acontecer. Apenas como exemplo, o DI de 2023 fechou abril em 9,2%, um pouco acima do ponto mais baixo anterior de 8,95%, mas nada comparável à disparada até 10,8% (cotação da hora em que a coluna estava sendo escrita) que veio a seguir.

Em abril ainda prevalecia uma queda de braço de discursos entre o Banco Central e os mais pessimistas no mercado. Estes últimos achavam que a retomada estava vindo mais vagarosa do que o esperado, e acreditavam numa Selic caindo até 6%, quem sabe até menos. Já Ilan Goldfajn, presidente do BC, via nesses pleitos uma certa ciclotimia de parte do mercado, que se encantou com uma possibilidade de PIB em 2018 acima de 3,5% no final do ano passado – quem sabe 4%? – e nos primeiros meses do ano estava passando para o extremo emocional oposto.

O dado da produção industrial de abril, de certa forma, reflete esse “zeitgeist”, e até mostra que o BC tinha razão – mas tudo isso agora já faz parte das brumas do passado.

O que veio a seguir foi uma sequência de duros golpes na economia brasileira, que despertou de volta uma combinação extremamente ingrata (especialmente para o BC): economia para baixo, e não só o dólar, mas também os juros de mercado e o risco, para cima.

O primeiro golpe foi a piora mais severa do mercado internacional, que primeiro puxou o dólar e acabou por contaminar os DIs a partir da surpresa da manutenção da Selic na reunião de maio. Não está 100% claro que, num cenário contrafactual em que o Copom levasse a taxa básica para 6,25%, como estava previsto, a contaminação não acontecesse – mas o fato é que ela ganhou impulso naquele momento.

A segunda pancada foi a greve dos caminhoneiros, que não só foi um soco no estômago de uma recuperação que já rateava, mas trouxe o risco político de forma mais relevante para os preços de mercado.

Em primeiro lugar, a greve parece ter cristalizado inapelavelmente a percepção negativa extrema da população em relação a Temer, e tornado muito mais difícil qualquer tentativa de separar aos olhos do eleitorado algum mérito da política econômica do “dream team” e o fracasso geral do governo. Contribui para isso, evidentemente, que as projeções de crescimento em 2018 venham caindo para o pífio intervalo entre 1% e 1,5%, com todos os impactos previsíveis no emprego e na renda em pleno ano eleitoral.

Adicionalmente, como nota Carlos Macedo, economista da gestora Canepa no Rio, o apoio da população à greve e o possível (como aparece na pesquisa hoje do site Poder360) reforço da candidatura extremista de Bolsonaro e esquerdista de Ciro sinalizam não só dificuldades adicionais para centro-direita na eleição, mas também um descolamento muito forte entre os desejos da população e a necessidade de promover um forte ajuste fiscal em 2019.

“Aparentemente, não pode elevar imposto, não pode fazer reforma, e o gradualismo é inconsistente com o que a economia brasileira precisa neste momento”, ele diz. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

 Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/6/18, terça-feira.