Produtividade, o verdadeiro vilão da indústria

Fernando Dantas

21 de fevereiro de 2014 | 21h10

A evolução da produtividade do trabalho teve mais impacto do que o câmbio na alta do coeficiente de importações desde a segunda metade da década de 90. Este é o resultado preliminar principal de um trabalho dos economistas João Paulo Faleiros, doutor pela USP, José Carlos Domingos da Silva (PUC-SP e FECAP-SP) e Marcos Yamada Nakaguma (FEA-USP).

A motivação básica do trabalho foi o aumento de 6,5% para 23%, entre 1996 e 2011, da participação dos produtos importados no consumo aparente (em termos reais) de toda a indústria (transformação e extrativa).

Os autores notam que, em 2011, o câmbio efetivo setorial médio da indústria, em termos reais, estava 60% mais valorizado do que em 2003. Desta forma, um forte candidato à explicação causal da ampliação dos importados no consumo aparente da indústria seria a apreciação cambial. Esta é a tese de muitos dos que veem um processo desindustrialização em marcha no País.

Faleiros, Silva e Nakaguma, porém, resolveram investigar conjuntamente o impacto do câmbio e evolução da produtividade do trabalho.

Num primeiro passo, eles compararam a variação anual do coeficiente de importações com as variações anuais do câmbio setorial e da produtividade, para 18 setores da indústria. Neste exercício, os autores encontraram alguma sensibilidade da indústria de bens de consumo e extrativa às variações de câmbio – isto é, câmbio mais desvalorizado associado a menor penetração de importações. Na indústria de bens intermediários e de capital, porém, não foi encontrada nenhuma correlação com o câmbio, o que fez com que, no resultado total da indústria, a ligação entre desvalorização do câmbio e menores importações também fosse fragilizada.

Já quando o mesmo exercício é feito substituindo-se as variações do câmbio pelas da produtividade do trabalho, revela-se uma relação muito significativa na indústria como um todo e em todos os setores – maior produtividade, menores coeficientes de importação.

Faleiros nota, entretanto, que isso é apenas um fato estilizado, isto é, não há nada indicando o sentido da causalidade. Por isso, no próximo passo, os autores utilizam um modelo econométrico para, numa abordagem empírica, tentar corrigir os problemas de casualidade reversa entre as variáveis e os efeitos setoriais constantes ao longo do tempo.

Neste exercício, eles constatam que tanto o câmbio quanto a produtividade influenciam o coeficiente de importações, mas o impacto do primeiro é bem mais expressivo. Assim, 1% a mais de produtividade reduz o coeficiente de importações em 0,13%, enquanto 1% a mais de desvalorização do câmbio efetivo setorial reduz o coeficiente em 0,025%.

Faleiros, Silva e Nakaguma verificaram ainda que, diferentemente da produtividade, o câmbio tem um efeito estatisticamente nulo para bens intermediários e de capital. Já no caso dos bens de consumo e da indústria extrativa, o impacto do câmbio e da produtividade é igual.

Dessa forma, os autores concluem que “políticas que induzam melhorias da produtividade na indústria brasileira são mais eficazes do que uma política de defesa comercial via depreciação cambial”. Uma vantagem adicional da política de produtividade é que ela gera benefício a todos os setores, enquanto o câmbio afeta de forma distinta os diferentes segmentos da indústria.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Este artigo foi publicado em 20/12, 5ª feira, na AE-News/Broadcast

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